Cascavel já chegou a ser chamada de “aldeia”. E com razão. Há pouco tempo dezenas de índios dividiam espaço nas calçadas e no gramado do Terminal Rodoviário, chamando a atenção de quem passava por ali. De tempos em tempos a prefeitura arrumava um ônibus, colocava todos dentro e os “devolvia” para sua aldeia de origem, a reserva Rio das Cobras, em Laranjeiras do Sul.

A presença constante dos índios também foi alvo de uma polêmica que dividiu a cidade: a construção de uma casa de passagem a essas famílias. O grupo dos contra ganhou a discussão e a estrutura não chegou a ser erguida.

Na atual gestão municipal, a equipe da Secretaria de Assistência Social decidiu ir até a aldeia conversar com o cacique. Afinal, o que tanto esses índios querem em Cascavel, passando frio em seus acampamentos improvisados? Querem donativos. E acreditem, eles voltam pra casa com a sacola bem cheia.

Na semana passada mais um grupo chegou à cidade. Estima-se que, com essas 13 famílias, chegue a 80 o total de índios habitando provisoriamente e percorrendo as ruas de Cascavel.

Pedro Secundino Luiz é um dos líderes da tribo Caingangue e conta que vieram a Cascavel em busca de material escolar, carrinho de bebê, roupas, sapatos. “Precisamos de muitas coisas para levarmos para a aldeia. Logo, logo voltam as aulas e as crianças precisam muito das doações”, explica.

Eles passam a sacolinha e a enchem rapidinho.

 

Sacolas e mais sacolas

Tanto que as famílias abrigadas na Casa POP (Casa de Passagem para População em Situação de Rua), no Bairro Santa Felicidade, zona sul de Cascavel, já acumulam muitos donativos. São sacolas e mais sacolas de produtos doados.

Conforme a lista vai sendo preenchida, eles programam a volta para casa: “Vamos ver como será o nosso transporte, mas não ficaremos mais que esse dia [4 de janeiro]. Conseguimos muitas doações, mas ainda precisamos de alguns itens. Estamos com uma mulher grávida e precisa de coisas para o bebê, como o carinho”, reforça o líder.

 

Incentivo precisa ser revisto

Para o diretor da secretaria Emilio Martini, enquanto a comunidade reclama da presença dos índios, especialmente devido às condições em que vivem, com crianças pedindo esmolas e vestidas precariamente, de outro lado é ela mesma quem sustenta e até incentiva essa “visita” rotineira. “Eles ganham tanta coisa que não tem por que não voltarem para Cascavel. É muita coisa mesmo”, diz Emilio, que acompanha de perto a situação.

Para ele, é preciso analisar até que ponto essa política de donativos é benéfica para os índios, que transformaram as vindas a Cascavel em uma verdadeira “feira livre”.

A maioria dos cerca de 80 índios que estão hoje em Cascavel estão divididos em três grupos: um perto da Rodoviária, outro na região do Bairro Cataratas e ainda esse que fica na Casa POP.