Por vezes nos pegamos fazendo conexões entre profissões diversas, sejam elas de humanas, exatas ou biológicas. Paralelos mais frequentes atualmente, tendo em vista que, em um mundo cada vez mais conectado, tem se tornado comum ver equipes multidisciplinares trabalhando juntas em prol da ciência.

Dentro desse cenário, começamos a refletir o que a Medicina e o Direito teriam em comum e, observando nossas práticas profissionais, conseguimos enxergar várias conexões entre elas, que abordaremos nesta coluna conjunta, advinda de reflexões entre um pai médico e de uma filha advogada.

Começamos olhando para a própria Constituição Federal, que traz a saúde como um direito fundamental e a advocacia como meio indispensável à justiça. Fazendo-se uma pesquisa rápida na internet, é possível acharmos casos envolvendo o direito à saúde em foco no Poder Judiciário, exigindo o exercício da boa advocacia para avanço de pautas relevantes à garantia da saúde a diversos brasileiros e discussões emblemáticas sobre judicialização da saúde.

Há uma conexão formal e institucional, portanto.

Olhando para aspectos mais cotidianos, enfrentamos a grande responsabilidade que temos em atuar como médico e advogada. Lidamos em nossa prática com a vida de muitas pessoas e a maior parte daquelas que nos procuram estão enfrentando algum problema. Estão tristes por si ou por aqueles que amam e acabam sendo raras as consultas em que atendemos casos eminentemente felizes, como uma gravidez desejada, um processo de adoção e por aí vai.

Lidar com a tristeza entristece, mas é preciso entender que, ao escolhermos nossas profissões, assumimos, também, a responsabilidade de cuidar da nossa saúde, física e mental, para nos mantermos como profissionais íntegros. As práticas envolvem escolhas pessoais, autoconhecimento, reconhecimento da nossa própria fragilidade, renúncias e motivações próprias para que consigamos cuidar e ajudar o próximo a partir do privilégio que tivemos que nos graduar no Ensino Superior e de conseguirmos atuar na nossa profissão com dignidade.

Há uma conexão entre as responsabilidades pessoais, portanto.

Apesar de ser esperado, durante toda nossa prática profissional, que percamos processos e pacientes, infelizmente, são momentos que nos revelam sentimentos de incapacidade e finitude, afora uma tristeza sem igual. Mas a prática que carrega tristezas, também traz consigo felicidades indescritíveis: a cura, a vitória, o tratamento eficaz, o êxito, a desinternação, a decisão favorável, o acordo frutífero, a manutenção da vida em vários aspectos.

Há uma conexão entre as tristezas e as felicidades, portanto.

A responsabilidade, ainda, assume outros ângulos se formos caminhando a lupa do atendido e do social, ao profissional. Assim como para diversas outras profissões, a prática da medicina e da advocacia exige dom. Não um dom natural, mas sim uma habilidade desenvolvida, estudada e praticada diariamente. Aptidões muito próprias, das quais emergem respeito, humanidade, empatia, cuidado, afeto, escuta ativa, além de uma evidente necessidade de não julgar, a dor, a fala, o outro.

Há uma conexão que envolve dom e respeito ao próximo, portanto.

Assim, falar dos paralelos entre a Medicina e o Direito é ir além da ciência comum para fazer correlações humanas muito intensas e potentes, de modo que os ensinamentos de pai para filha continuam, aqui, a se vincular pelo amor, que supera as barreiras de uma só família e atinge o próximo desconhecido, seja ele o paciente, o cliente ou a sociedade como um todo, para a qual dedicamos nossa atuação em busca de um mundo melhor para todos e todas. Que sejamos médicos, advogados e profissionais unidos por princípios humanos, essencialmente!

 

Humberto Golfieri Jr e Marília Golfieri, pai médico e filha advogada