Pacientes, familiares, instituições, empresas, governo e população geral têm grande potencial para serem vetores de transformação e redução do impacto do câncer. Essa é a premissa da campanha do Dia Mundial do Câncer, organizada mundialmente pela UICC (União Internacional de Controle do Câncer). No Brasil, a Femama (Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama), membro da UICC, está à frente das ações, com foco em fortalecer a luta pelo avanço PLC dos 30 Dias.

O Projeto de Lei Complementar 143/2018, ou PLC dos 30 Dias, determina que, em casos em que há a hipótese de um diagnóstico de câncer, os exames necessários para a devida elucidação da doença, incluindo confirmação em biópsia, devem ser realizados em um prazo máximo de 30 dias no SUS (Sistema Único de Saúde).

Em razão do Dia Mundial do Câncer, 4 de fevereiro, a Femama lança um banco de relatos que visa coletar depoimentos sobre dificuldades para obter diagnóstico ágil de câncer na rede pública de saúde. Pacientes que esperam ou esperaram por mais de um mês para receber o diagnóstico oncológico podem acessar o site http://bit.ly/DMCFemama19 e preencher o formulário, contando seu caso.

As 74 ONGs que compõem a rede Femama pelo País foram mobilizadas para entregar ofícios aos senadores de seus estados, explicando e ressaltando a importância desse projeto, solicitando que sejam favoráveis e apoiem seu avanço na Casa Legislativa.

No portal do Senado E-cidadania, toda a população pode votar “SIM” no questionamento “Você Apoia essa Proposição?” sobre o PLC 143/2018, bem como enviar o link da votação para seus amigos, colegas e parentes e aumentar ainda mais o alcance da consulta. Para votar, acesse: http://bit.ly/ApoioPLC30Dias.

Além disso, há também a hashtag #DiaMundialDoCâncer e um filtro especial para a câmera do Facebook criado pela UICC. Pelas redes sociais, a Femama disseminará diversas informações importantes e maneiras de apoiar e difundir a causa.

Pacientes contam história da longa espera

O banco de relatos da Femama nasceu como uma maneira de apresentar mais palpavelmente a realidade da assistência oncológica brasileira, uma vez que a demora no diagnóstico corrobora para que a doença seja identificada em estágios tardios. Os depoimentos são uma maneira de demonstrar a importância da aprovação rápida do PLC dos 30 Dias; o projeto foi aprovado pela Câmara em dezembro de 2018 e enviado ao Senado.

Enquanto nos países desenvolvidos o tempo entre a identificação dos sintomas e o diagnóstico é de menos de 30 dias, no Brasil esse processo dura entre sete e oito meses, segundo levantamento publicado no World Journal of Clinical Oncology em 2014. Não a toa, cerca de 60% dos casos de câncer são registrados nas fases mais avançadas em nosso país, informa a Femama

O banco de relatos tem o apoio do Instituto Espaço de Vida, além das instituições que compõe a rede Femama em todo o País.

Câncer de pulmão: 2º tumor mais frequente no Brasil

De acordo com o Inca (Instituto Nacional de Câncer), o câncer de pulmão é o segundo mais comum no Brasil, ficando atrás apenas do câncer de pele do tipo não melanoma. A previsão do instituto é de que em 2019 sejam diagnosticados mais de 31 mil novos casos de câncer de pulmão no País. E o principal vilão responsável pela alta incidência desse tipo de tumor é o tabagismo.

"O uso de tabaco corresponde a mais de 90% dos casos de câncer de pulmão no Brasil. Quanto mais cigarros a pessoa fuma por dia e quanto mais tempo a pessoa fumar na vida, maior será a probabilidade de desenvolver câncer de pulmão", alerta William Nassib William Júnior, diretor médico de Oncologia Clínica e Hematologia do Centro Oncológico da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo.

Tratamento personalizado

Ao identificar os sintomas como cansaço, fraqueza, perda de peso, tosse persistente, respiração curta, perda de fôlego, escarro com sangue, rouquidão e dor no peito, a pessoa deve buscar ajuda médica. Para maior assertividade no tratamento é importante procurar por um polo de saúde que proporcione assistência integrada no tratamento do câncer.

"No Centro Oncológico da BP, estruturado no modelo de cancer center, equipes multidisciplinares discutem cada caso de forma personalizada para definir a melhor estratégia de tratamento, garantindo segurança e qualidade de vida para os clientes", explica William Nassib William Júnior.


O Brasil está preparado para reduzir a idade para o rastreamento do câncer colorretal?

Em menção ao Dia Mundial do Câncer, a Sobed (Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva) chama atenção para o debate acerca do rastreamento do câncer colorretal (CCR). A partir de estudos realizados pela American Cancer Association, a recomendação internacional é reduzir a idade para início do rastreamento da neoplasia de 50 para 45 anos. Contudo, estamos preparados para atender a essa demanda?

De acordo com a estimativa do IBGE, o Brasil conta com mais de 43,6 milhões de pessoas na faixa etária contemplada pela política de prevenção do CCR – de 50 a 75 anos. Considerando quem tem mais de 45 anos, esse número salta para 56,9 milhões.

Ronaldo Taam, médico endoscopista e membro da Comissão de Prevenção do Câncer Colorretal da Sobed, diz que o País já encontra dificuldades de combater o câncer e que antecipar o início da realização de exames pode representar problema sério.

“Precisamos, sim, de programas direcionados ao rastreio da neoplasia de cólon e reto no grupo de risco e em pacientes que apresentam sintomas. Essas ações devem ser locais, a fim de contribuírem para formar um quebra-cabeça nacional – desta forma, conseguimos dados concretos sobre o que está sendo feito, além de aumentar consideravelmente a abrangência da cobertura dos exames, como da colonoscopia”, indica.

O especialista explica que, “quando se fala em rastreamento do câncer de cólon e reto, na realidade é processo de busca ativa de lesões pré-cancerosas (pólipos adenomatosos) e/ou em estágios iniciais (câncer precoce) de uma doença ainda sem manifestações clínicas”.

Essa neoplasia é a terceira mais frequente em homens e a segunda em mulheres – considerando-se a incidência dos casos de câncer e é a segunda causa mais frequente de óbito.

Em alerta

A orientação internacional surgiu após evidenciar-se o diagnóstico em pacientes novos, com idades entre 20 e 40 anos. O especialista afirma que são casos específicos e que, por isso, demandam atenção de todos para identificar sinais e, quando necessário, solicitar exames complementares, como teste de sangue oculto nas fezes e colonoscopia.

“Estudos epidemiológicos mostram alguns critérios que devem ser levados em consideração, como obesidade, sedentarismo, alterações na dieta e alto índice de massa corporal. Ao analisar pessoas que vivem sob todas essas questões, reconheceram-se quadros em que havia presença de pólipos – ou seja, lesões pré-oncológicas, passíveis de tratamento endoscópico”, esclarece.

Porém, Taam reforça que tal conduta segue para casos específicos e utiliza-la como norte para políticas públicas em larga escala não é viável. “O número de pessoas a serem elegíveis para rastreamento tradicional, entre 50 e 75 anos, é muito elevado e não há ainda um programa que atenda essa demanda. As necessidades de recursos humanos e materiais são grandes, assim como é complexa a logística para assegurar a confirmação dos testes positivos e para oferecer tratamento para os casos em que haja necessidade de tratamento endoscópico e/ou cirúrgico e oncológico. Há a necessidade da implantação de programas de rastreamento e incremento dos poucos já existentes, com integração e análise dos dados coletados visando a uma visão mais global desse tipo de câncer em nosso país”.


Medicina Nuclear é importante ferramenta na detecção de metástase

De acordo com projeção da Iarc (Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer), até 2030 o câncer será a principal causa de morte em todo o mundo – anualmente, 9,6 milhões de pessoas em todo o globo perdem vida em decorrência da doença.

O diagnóstico precoce é importante para evitar que as células cancerígenas se espalhem para outras regiões do corpo, as chamadas metástases, estágio mais avançado. Contudo, no Brasil, 40% dos casos são identificados já em fases mais graves. Neste caso, a medicina nuclear é ferramenta importante para precisão e agilidade diagnóstica e terapêutica.

A especialidade, que utiliza materiais radioativos em baixas doses para proporcionar diagnósticos cada vez mais assertivos, tem entre suas ferramentas na investigação de metástases a tomografia por emissão de pósitrons (PET/CT). Por meio desse exame se avalia a presença de lesões metastáticas e se detectadas permite a realização de biópsias, possibilitando que o tratamento contra a doença tenha maior eficácia e acurácia. “O procedimento permite visualizar a fisiologia humana por meio da concentração dos radiofármacos utilizados nos exames. As células cancerígenas precisam se reproduzir rapidamente, o que aumenta seu consumo de energia; o exame de PET/CT aproveita desta característica para reconhecer se o câncer foi disseminado para outras estruturas do organismo”, explica Juliano Cerci, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear (SBMN).

O PET/CT é um dos exames mais avançados no que tange o diagnóstico de câncer. “Ele pode alterar a forma de tratamento em cerca de 30% dos pacientes com câncer colorretal, principalmente ao detectar massas extra-hepáticas, por exemplo, que não são captadas nos exames tradicionais como tomografia e ressonância”, cita Cerci.

A medicina nuclear é amplamente utilizada para identificar a metástase óssea, inclusive encontrando-a antes mesmo de manifestar quaisquer sintomas. Entre os tumores mais comuns que se espalham para os ossos, destacam-se o de mama, de pulmão, de próstata, de tireoide e de rim.

Importante passo

Recentemente, o governo federal deu um passo importante para o avanço brasileiro da medicina nuclear: o início da construção do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), empreendimento que será capaz de produzir radiofármacos utilizados no diagnóstico e tratamento oncológico, por exemplo. Com isso, visa-se suprir a demanda nacional e ampliar o acesso aos procedimentos da medicina nuclear no SUS (Sistema Único de Saúde).

“Por ano, cerca de 2 milhões de exames da medicina nuclear são realizados no Brasil, porém apenas 30% deles são realizados para o SUS, sendo que o SUS é responsável pela saúde de 75% da população brasileira. Ou seja, existe um abismo muito grande entre a medicina privada e a do SUS”, afirma Cerci, da SBMN.