No curso de sua experiência com as Constelações Familiares, Hellinger percebeu diferentes modos através dos quais acontece a expiação de um aborto. Um modo frequente de expiação costuma ser a renúncia inconsciente a uma nova gravidez ou o surgimento de nascimentos prematuros. Depressão e tendências suicidas são igualmente manifestações comuns de expiação. A renúncia inconsciente a uma relação de casal é também uma possível consequência de abortos induzidos. Para outros casais, a expiação se mostra no fracasso da relação sexual ou, no mínimo, a uma vida de casal sem intimidade, “fria” e distante. Em geral, depois de um aborto a esposa não está mais disponível por inteiro para o marido, porque uma parte dela permanece com o filho abortado. Essas diferentes formas de manifestação costumam levar à separação formal.

Apenas um exemplo entre tantos para ilustrar as profundas consequências dos abortos induzidos sobre o casamento e a responsabilidade que os homens têm em relação a isso. Um homem veio para aconselhamento terapêutico desconsolado querendo entender porque a esposa o havia abandonado. Era pai de quatro filhos e, após dez anos de casamento, a esposa o deixou. A Constelação Familiar mostrou que, após o segundo filho, houve um aborto cuja decisão foi do marido contrariando a vontade da esposa. A raiva inconsciente dela em relação a esse aborto fez com que sentisse como insuportável seu casamento e se decidisse pela separação.

As mulheres, diz Hellinger, têm toda a razão quando dizem que seus ventres lhes pertencem e que tomam a decisão final: uma mulher sempre pode dizer “não”. Se, não obstante, ela abortar, não poderá se desculpar com a pressão exercida pelo marido, como no caso relatado a pouco. Assim como o marido, também ela precisa dizer ao filho abortado: “Assumo minha culpa!”, ainda que, nesse caso, a culpa do marido tenha sido maior.

A solução para o aborto inclui a obrigação de a mulher informar ao homem implicado. Os homens têm o direito de saber o que aconteceu às suas costas. No entanto, ainda que ele não saiba do aborto, está envolvido do mesmo modo na decisão. Com efeito, quando ele souber mais tarde do aborto terá que se perguntar como teria agido em relação ao fato se tivesse sido informado na ocasião em que a mulher decidiu por abortar.

É importante que se tenha presente que também o aborto vindo de um relacionamento anterior afeta a parceria atual e diminui o vínculo, mesmo quando o novo parceiro sabe sobre o aborto, “pois, através do aborto, continua atuando em direção ao antigo relacionamento um vínculo firme, especialmente porque ele tem precedência em relação ao posterior” (Hellinger, B. Mein Leben. Mein Werk, Ariston eBook, 2018).

Para o casal o aborto induzido implica em que a primeira relação terminou, mas uma segunda relação pode ter início com o mesmo parceiro. No entanto, diz Hellinger, “não será o mesmo relacionamento de antes. Com efeito, ele passou por um processo de morte. Os parceiros encontraram-se outra vez, mas não com a antiga intimidade despreocupada. Ao mesmo tempo, porém, o relacionamento é fortalecido pelo reconhecimento da culpa compartilhada” (Hellinger, B. Mein Leben. Mein Werk, Ariston eBook, 2018).


JOSÉ LUIZ AMES E ROSANA MARCELINO são terapeutas sistêmicos e conduzem a Amparar.