Mencionamos no final da postagem anterior que silenciar sobre um aborto gera consequências na ordem de irmãos. Entre essas consequências está, por exemplo, que um filho pode ser considerado como o mais velho quando não o é e, por conseguinte, viver sob pressão, sentindo-se responsável por tudo. Esse peso afeta outra lei sistêmica: o equilíbrio entre o dar e o tomar. Assim, depois que esse filho estiver casado, seu comportamento em relação à parceira costuma ser a de dar e de ter dificuldades em receber. Semelhantes relacionamentos correm grandes riscos de fracassar: aquele que sempre toma sem dar acaba abandonando a relação.

Essa, no entanto, não é a consequência mais grave da exclusão dos filhos abortados do sistema. Os efeitos da exclusão de um abortado podem recair sobre qualquer filho vivo e não tão somente sobre o mais velho, explica Hellinger: “Pode acontecer de um filho se identificar no nível inconsciente da consciência com o irmão abortado e se sentir atraído para a morte. Ou, então, o filho assume o sentimento de rejeição do irmão abortado e se torna agressivo” (Hellinger, B. Mein Leben. Mein Werk, e-Book, 2018).

No caso dos abortos espontâneos, na grande parte das vezes, a dificuldade está em que a própria mãe não tem conhecimento disso, especialmente quando o aborto ocorreu nas primeiras semanas da gravidez. Em geral, é somente durante uma Constelação Familiar que ela descobre que teve um ou mais abortos. Apenas então será possível refazer a linha de irmãos de forma correta. Com isso, a ordem de colocação fica restaurada. Quando essa correção da ordem segue uma dinâmica de inclusão dos abortados no sistema, muitas vezes também se extinguem as manifestações negativas expressas pelos filhos vivos.

Uma dúvida frequente é: qual é a melhor maneira de contar aos filhos sobre um aborto? Hellinger sugere o seguinte: “Em uma comemoração de aniversário, por exemplo, pode-se colocar um lugar adicional na mesa e dizer: ‘Há outra pessoa na mesa. É seu irmão/irmã. Mas ele/ela morreu’. Se, então, o filho olha para o irmão abortado e lhe disser: ‘No meu coração você tem um lugar’, brota disso um movimento de bênção para o filho vivo” (Hellinger, B. Mein Leben. Mein Werk, e-Book, 2018). Essa é também uma boa maneira de promover a inclusão do abortado no sistema familiar.

Outra dúvida comum é se seria o caso de colocar uma boneca ou algum objeto em algum lugar da casa para lembrar durante toda a vida de um filho abortado, seja de um aborto espontâneo ou induzido. Hellinger responde essa dúvida do seguinte modo: “Não, isso seria fatal! Assim, jamais poderá ser passado. Dessa maneira, o filho abortado não encontrará paz. Deve-se levar o filho abortado dentro do próprio coração, e ao cabo de certo tempo despedir-se dele. Então pode retirar-se” (Hellinger, B. Lograr el amor en la pareja, p. 219).

Nas próximas postagens refletiremos sobre várias questões relacionadas aos abortos provocados intencionalmente.


JOSÉ LUIZ AMES E ROSANA MARCELINO são terapeutas sistêmicos e conduzem a Amparar.