A separação sempre vem acompanhada de uma profunda dor. Nas reflexões anteriores mencionamos que, às vezes, um parceiro ou mesmo ambos procuram evitar a dor buscando os motivos e os culpados por ela. A busca pela culpabilidade tem o cômodo efeito de não olhar a dor de frente. No entanto, somente vivendo a dor será possível tornar-se livre outra vez para um novo vínculo. Por isso, em vez de buscar o culpado, o casal precisa entregar-se à dor. No fundo, permitir-se sentir a dor da separação é viver o luto da morte. Com efeito, a outra pessoa se foi, não está mais comigo, tal como acontece quando perdemos um ente querido em virtude da morte.

Sem dúvida, é desafiador reconhecer o bom e belo no outro quando se está magoado e em dor profunda. Igualmente, é desafiador permitir-se sentir a raiva e a dor sem perder-se nelas. Ainda que no período inicial do processo de separação a raiva possa nos levar à convicção de que jamais amamos aquela pessoa, ou que o parceiro jamais nos amou realmente, o fato de haver existido uma relação – curta ou longa – é mostra viva de que em algum momento existiu amor.

“A separação é um processo doloroso – escreve Hellinger. Alguns esperam até que tenham sofrido o suficiente para, por assim dizer, comprar o direito de se separar. Mas isso só piora as coisas” (Hellinger, B. Mein Leben. Mein Werk, 2018 – tradução nossa). Com efeito, muitas vezes o processo de separação é demorado, porque um dos cônjuges deseja um novo começo liberado do vínculo, mas não se permite trabalhar nisso com receio de magoar o parceiro. Assim, age como se com o seu sofrimento, ao permanecer numa relação que já não quer mais, fosse capaz de neutralizar o sofrimento do parceiro ou, então, justificar mais adiante aos olhos dos outros a sua decisão de separar-se.

Como diz H Hellinger, a pessoa age como se precisasse “comprar o direito de se separar”! A pessoa vive uma relação infeliz, compartilha com as amigas e amigos sua infelicidade em uma dinâmica inconsciente como se quisesse “comprar” o “direito” social de abandonar a relação. A pessoa deseja que suas amigas e amigos digam depois da separação: “você já sofreu demais; você está mais do que certa/o de separar-se!”.

Uma bela ilustração da dor que a separação carrega consigo nos é dada pela descrição que Hellinger oferece do processo pelo qual ele próprio passou quando decidiu se separar de sua primeira esposa Herta a fim de casar-se com Sophie: “Nos últimos dias de 2001 tomei uma decisão: eu me divorciaria de Herta e disse isso a ela. Ela ficou profundamente abalada. […] Doeu também a mim que eu a tenha machucado dessa maneira. Mas não havia outro jeito. […] Mais tarde, convidamos várias vezes Herta a se juntar a nós, mas ela sempre recusou. […] Eu teria gostado de ter tido um relacionamento amigável com ela. Contudo, depois do nosso divórcio, nunca mais houve um encontro nem conversas mais prolongadas. […] Eu não a vi mais até o dia de sua morte, em abril de 2016. Vizinhos me informaram que ela estava no hospital em Salzburgo. Fui imediatamente, mas quando cheguei já estava em coma. Eu me demorei no leito por um tempo e me despedi dela. Sete horas depois da minha visita, ela morreu” (Hellinger, B. Mein Leben. Mein Werk, 2018 – tradução nossa).

 

————–

JOSÉ LUIZ AMES E ROSANA MARCELINO são terapeutas sistêmicos e conduzem a Amparar.