Calculando o prejuízo: Sequência de geadas devasta 60% das lavouras com trigo

Efeitos que antes eram vistos apenas uma semana após as geadas, são notados imediatamente com as formações consecutivas

Cascavel – A sequência de três geadas (sábado, domingo e segunda-feira), de grau moderado a forte, prejudicou as lavouras de trigo da região oeste do Paraná, o maior produtor do cereal no Estado. Segundo o técnico José Pértille, do Deral (Departamento de Economia Regional) do Núcleo Regional da Seab (Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento) de Cascavel, 60% das lavouras que estão em floração e em frutificação tiveram danos irreparáveis e considerados de alto potencial: “A ação das geadas foi tão forte nessas lavouras que sinais que demoram sete ou oito dias para aparecer puderam ser notados imediatamente. As plantas estão totalmente queimadas”, lamentou.

Isso porque ainda não se pode precisar o quanto esses danos vão afetar a produtividade, mas, o que se sabe, é que os prejuízos são irreversíveis e há casos onde toda a lavoura foi perdida.

Ainda segundo Pértille, os outros 40% que estão em desenvolvimento vegetativo não foram afetados, considerando que nesse estágio essa cultura gosta do frio. “Mas quando está em floração e frutificação, esse frio todo é muito preocupante”, completou.

Geralmente, as lavouras não seriam tão prejudicadas pela geada nesta época do ano. Ocorre que neste ano houve uma antecipação do plantio do trigo, mas para entender isso é preciso voltar à safra de verão 2018/2019.

Como as condições climáticas não foram favoráveis à cultura da soja no fim de 2018, com calor extremo e falta de chuva, muitas áreas foram colhidas cerca de 30 dias antes do habitual. Imediatamente os produtores cultivaram o milho safrinha que teve um desenvolvimento considerado excelente e que está com 70% de suas áreas já colhidas. As 30% de lavouras que continuam no campo não tiveram prejuízo com as geadas.

Com a antecipação do ciclo do milho, o cultivo do trigo também foi antecipado, por isso o estágio dessas lavouras mais atingidas era considerado avançado.

Em todo o oeste foram cultivados 189 mil hectares de trigo e a expectativa inicial era colher de 630 mil a 650 mil toneladas, cerca de 12% da produção nacional.

 

Novas geadas a caminho

Ocorre que os prejuízos podem não parar por aí. Segundo o Simepar, ao menos parte do oeste ainda pode ser atingida por geadas fracas nesta terça-feira, com o dia amanhecendo a 6ºC e a máxima não superando os 21ºC.

A partir de amanhã o risco diminui e as temperaturas devem variar entre 11ºC e 22ºC. Isso deverá permanecer por pelo menos uma semana, mas na quarta-feira da semana que vem, dia 17, o avanço de uma nova massa de ar frio vai fazer os termômetros despencarem novamente, embora não tanto quanto no último fim de semana. Em Cascavel, para se ter ideia, segundo o Simepar, foram registrados -4ºC no último sábado com sensação térmica de -7ºC.

Na quarta da semana que vem as mínimas devem ser de 3ºC e de 2ºC e 5ºC na quinta e na sexta-feira, respectivamente, com possibilidade de geada para esses três dias.

Reportagem: Juliet Manfrin


Leite, frutas, verduras e legumes

 

Outros segmentos que sofrem com a geada são a bovinocultura de leite, com as pastagens prejudicadas, e as frutas, as verduras e os legumes.

Na Ceasa (Central de Abastecimento do Paraná S/A) de Cascavel, os produtos já chegaram em quantidades menores nesse início de semana e estão sendo vendidos a preços mais elevados.

“A alface, por ser uma das folhosas mais consumidas, é vendida a R$ 2,30, já outras hortaliças como couve, rúcula, almeirão, estamos vendendo a R$ 2,50”, explica o analista de mercado Olívar da Rocha. Até poucos dias atrás elas custavam R$ 2.

De acordo com Olívar, o consumidor deve sentir diferença nos preços a partir desta quarta-feira. “Esse aumento vai depender da oferta e da demanda. Como o consumo de hortaliças cai no inverno, é provável que o aumento seja de até 50%”.

Ele explica que as plantações em regiões mais baixas foram bastante afetadas. Esse foi o caso da produtora Olezia Stachlsqui, que tem uma horta no Bairro Santo Onofre, em Cascavel, onde 60% da plantação foi perdida.

O analista Olívar da Rocha conta que produtos que se desenvolvem em cima da terra também terão alterações nos preços nesta semana. “Tomate, berinjela, pepino, chuchu, são legumes vêm de São Paulo e Minas Gerais, onde a geada também foi forte. O tomate, por exemplo, já apresenta um aumento de 20% e no fim de semana a diferença será maior”, projeta.

Quanto ao leite, a expectativa é de que a mudança nos preços seja mais evidente a partir da próxima semana.

Reportagem: Milena Lemes

 

 

Foto: Aílton Santos


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