AGRONEGÓCIO

Cadeia de carnes: Para manter estoque, indústrias recorrem ao milho paraguaio

15 de junho de 2019 às 05:03
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Toledo – Com o objetivo de garantir preço e não faltar estoque, unidades industriais da região – como cooperativas e frigoríficos integradores – intensificaram a compra de milho do vizinho Paraguai, o principal parceiro comercial para esse produto.

A expectativa ante à supersafrinha que pode superar as 5 milhões de toneladas somente na região oeste do Paraná e 13 milhões de toneladas em todo o Estado é de que não faltará produto para o mercado interno, mas como cautela é a palavra de ordem, essas empresas estão reforçando seus armazéns para ter ração suficiente para alimentar frangos, peixes e suínos por um período de seis a oito meses sem risco de contratempos até a próxima colheita.

A prática não é incomum, mas desta vez ganha um ingrediente extra: a valorização das commodities no mercado internacional, que aqueceu as exportações de soja e milho. Somente nos últimos 30 dias o preço dos dois cereais valorizou em cerca de 10% e a tendência é de continuar subindo. Os motivos estão estampados em duas frentes. A guerra comercial entre Estados Unidos e China e a principal delas, o cenário devastador das condições das lavouras já cultivadas nos EUA.

O maior produtor de milho do mundo poderá perder nesta safra ou deixar de plantar o equivalente a 50 milhões de toneladas, o que só pelas perdas representariam cerca de 80% da produção brasileira de milho. A janela do cultivo por lá já chegou ao fim e estima-se que apenas 85% da área original foi cultivada. “Do que foi plantado, em torno de 35% estaria em condições muito ruins diante do excesso de chuva. O que se precisa analisar agora é se a área sem plantio vai migrar para a soja, ou se os produtores vão acionar o seguro e não cultivar nada. Condição que deve se desenhar em um mês porque ainda há prazo para a semeadura da soja por lá. Então as condições de mercado se definem nos próximos 30 dias”, afirma o especialista de mercado e engenheiro agrônomo José Augusto de Souza.

Segundo ele, o outro ingrediente que tem aumentado a demanda pelos grãos in natura diz respeito à guerra comercial entre EUA e China, o que promete manter elevada a procura pelos grãos brasileiros. Vale lembrar que a soja vendida pelo oeste no início deste ano para o país asiático teve um de seus maiores volumes da história.

Hora de fazer contas entre exportar ou importar

E como tudo isso recai sobre o produtor também aqui no oeste do Paraná, a hora é de fazer as contas para entender esse comportamento do mercado.

Os números da balança comercial dos primeiros cinco meses do ano indicam uma certa vantagem de exportar milho nacional e importar milho paraguaio.

O grão é responsável por cerca de 70% da composição da ração animal, portanto, imprescindível para alimentar os plantéis de aves e suínos da região, onde estão as maiores concentrações estáticas dos dois segmentos no Brasil. “Mesmo com a tendência de aumento das exportações, não deverá faltar milho no mercado interno porque os frigoríficos [integradores] estão fazendo seus estoques para suportar por seis até oito meses e boa parte do produto vem de fora, deve vir do Paraguai”, cita José Augusto de Souza.

O oeste vendeu para outros países, de janeiro a maio deste ano, 22.469 toneladas do grão e recebeu por elas pouco mais de US$ 3,8 milhões. Cada quilo do cereal rendeu, em média, US$ 0,17, próximo de R$ 0,65, ou R$ 38 a saca, quase R$ 7 a mais do que a cotação neste momento para o produto colocado no Porto de Paranaguá. Com esses números, o volume exportado foi o maior dos últimos dez anos.

Para se ter ideia, de janeiro a maio de 2018 o oeste havia enviado para fora apenas 231 toneladas do cereal, no ano anterior havia sido 634 toneladas e, em 2016, apenas 239 toneladas, com preço médio da saca entre R$ 14 e R$ 20.

Na outra ponta, as importações somaram 27,3 mil toneladas e custaram US$ 3,4 milhões, ou seja, média de US$ 0,12 o quilo, R$ 27 a saca, ou seja, 29% a menos que o valor do produto exportado em 2019, mas o volume adquirido de outros países no período ainda é o menor nos últimos sete anos, revelam os dados da balança comercial.

As importações de milho nos primeiros cinco meses de 2018 somaram 74,3 mil toneladas e no ano anterior a região importou 101 mil toneladas, contra 86 mil em 2016 e 56,6 mil em 2015.

Resumindo: hoje estamos importando milho por R$ 27/saca e exportando por R$ 38/saca. Vale lembrar que essa conta é livre do valor do frete.

Com o excesso de chuva nos EUA, a tendência é para que esses valores sofram alterações para cima, assim como já se tem observado no último mês, mesmo assim, o mercado pode seguir vantajoso nas duas frentes: importação e exportação, prevê o analista. “O milho do Paraguai é de excelente qualidade, assim como o nosso. Temos cooperativas da região com unidades por lá, ou seja, produtores de lá que entregam o cereal para ela [vendem] e os preços do país vizinho seguirão competitivos, sobretudo porque os contratos foram assinados já há algum tempo, por isso, não acredito que essas tendências de mercado devam surtir grandes efeitos sobre a cadeia de carnes, como aumento expressivo dos preços, por exemplo”, completa José Augusto de Souza, ao reforçar que esse impacto só deve ser de fato sentido às unidades produtoras que não formaram estoques.

Sobre as exportações, ele reforça que o mundo precisa dos grãos e vendê-los pode garantir divisas, mas faz um alerta importante: vantagem mesmo é vender produtos com valor agregado, como as carnes, que custam muito mais, geram mais empregos e renda.

Colheita

A região oeste já colheu cerca de 20% de suas áreas de milho com produtividade média considerada muito boa. Em todo o oeste, foram cultivados cerca de 750 mil hectares com o cereal. A colheita chega ao fim em um mês, com estimativa de 5 milhões de toneladas produzidas.

Reportagem: Juliet Manfrin

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