Se você não é um falante nativo de inglês, talvez seja mais difícil notar as diferenças entre o idioma falado no Estados Unidos, na Austrália, na Inglaterra ou em países como Canadá e Índia. Cada forma de falar inglês tem características que se distinguem do resto dos países anglófonos, não apenas na fala, mas na escrita.

Recentemente, uma onda de brasileiros em intercâmbio na Austrália foi notada pelas agências de viagens do Brasil e pelas autoridades australianas. São, em sua maioria, estudantes interessados em aprender inglês em um local de língua nativa. O crescimento significativo fez com que empresas e o governo começassem a investir em programas de incentivo e roteiros alternativos que mesclam as obrigações educacionais com o potencial de lazer da região.

Segundo Vinícius Barreto, CEO da Australian Centre, uma das maiores agências de intercâmbio para a Austrália operando no Brasil, houve um aumento de 30% no número de estudantes brasileiros procurando instituições de ensino na ilha oceânica entre 2015 e 2016. Em média, a cada ano, a taxa de viagens aumenta em 20%.

“Os brasileiros entenderam que é inteligente aproveitar o momento que o país vive e se qualificar no exterior, principalmente para voltar mais competitivos ao mercado de trabalho nacional. Quando a economia retomar e os empregos voltarem ao patamar que estavam, eles estão mais qualificados”, argumenta.

Inglês britânico

Tecnicamente, o inglês britânico é a raiz de qualquer língua inglesa falada no mundo. Se não fosse pela colonização de diversos países pela Grã-Bretanha, as Américas, a Índia e a Austrália seriam lugares diferentes hoje. Mesmo assim, o idioma, tal como é usado no país europeu, é considerado o mais complexo entre as cinco formas básicas aceitas atualmente. Algumas regras de fala e de gramática são mais difíceis de entender do que aquelas que são ensinadas em escolas nos Estados Unidos, por exemplo.

Parte disso se explica pela padronização da língua inglesa na Grã-Bretanha no século 18: foi naquele período que muito do idioma falado hoje no país se tornou padrão para as leis, os documentos oficiais, a literatura e a educação. Naquela época, o francês era considerado a língua franca da Europa e, dessa forma, a França era considerada o epítome da alta classe e da cultura do mundo. Percebendo esse lugar, os britânicos quiseram mostrar a influência francesa em seu inglês escrito (e isso permitiu que as altas classes se diferenciassem dos mais pobres e menos educados).

É por esse motivo que, no inglês britânico, é comum o uso do "s" em vez do "z", como na palavra "accessorise" ("acessório"), que no inglês dos EUA se escreveria "accessorize". No uso europeu, a palavra é similar ao modo como ela é escrita na língua francesa (“accessoire”). Algumas palavras do inglês da Grã-Bretanha são escritas exatamente iguais às do francês, como "aeon" ("eternidade").

"Para manter as coisas fáceis de entender, uma regra geral para guiar um estudante de inglês britânico é que o idioma escrito serve para refletir a etimologia das palavras", explica Raul Ribeiro, estudante do curso de Letras da Universidade de São Paulo (USP).

Inglês australiano

As línguas são sempre um produto da cultura e da história, e o inglês australiano é muito influenciado por essa máxima: trata-se de uma versão do idioma falado na Grã-Bretanha, que colonizou o país da Oceania por séculos.

A primeira sociedade britânica no continente foi uma prisão construída para separar criminosos de suas famílias em um "mundo distante" e, duas gerações depois, 90% dos colonizadores vivendo na Austrália eram ex-detentos, detentos ou réus confessos. Isso, segundo linguistas, influenciou a maneira como o inglês é falado por lá.

Os presos não faziam parte das altas classes britânicas e, por isso, não tinham a mesma educação. Assim, era comum usarem gírias e termos no diminutivo para fazer o inglês ser mais rítmico e, na nova casa, mais fácil de usar. Além disso, os dialetos variados dos povos aborígenes australianos começaram a entrar na sociedade australiana já anglófona, gerando novas distinções.

Muitos dialetos aborígenes tendem a ter uma coisa em um comum: eles acabam cada sílaba como um som de vogal, dando uma entonação suave a qualquer língua. Então, quando os falantes de inglês começaram a adotar e usar palavras dos indígenas, passaram também a suavizar as palavras inglesas para que elas se harmonizassem melhor com os termos locais. Por isso, britânicos e estadunidenses dizem que o inglês da Austrália é mais "meloso" ou "preguiçoso" – ele soa muito mais leve e solto do que o falado nesses países.

O estudante brasileiro Gabriel da Hora, de 19 anos, que fez um intercâmbio para a Austrália no ano retrasado, sentiu as diferenças quando foi a Orlando, nos EUA, no começo de 2018. Ele conta que, como único falante de inglês da família, ficou responsável por se comunicar nos parques, no hotel, no transporte público e na hora de pedir comida nos restaurantes ou bares, sendo sempre confundido com um australiano. "Eu não sei quantas vezes precisei dizer que, na verdade, era do Brasil. Meu inglês ficou muito impregnado do jeito australiano, mas eu gosto", comenta.

Inglês estadunidense

Fora de todas as formas de inglês, os EUA são geralmente considerados o lugar mais adequado para aprender e falar o idioma. Hoje, estudar a língua inglesa falada no país é quase uma regra para muitos jovens do mundo, principalmente da Ásia e da América do Sul. Em comparação com o inglês da Grã-Bretanha e da Austrália, a gramática e a escrita são relativamente fáceis.

No entanto, há uma coisa em comum com a Austrália: foram nativos ingleses que migraram para os EUA, levando consigo o idioma. Porém, se não fosse a Revolução Americana, em 1765, provavelmente o país falaria um inglês completamente diferente. Naquele ano, os Estados Unidos procuraram superar a autoridade da Grã-Bretanha e formar uma nação própria, independente. Quando a revolução acabou, em 1783, o novo país queria se distanciar dos antigos colonizadores e criar uma identidade particular, e, nesse ideal, a língua cumpriu um papel fundamental.

Noah Webster, um lexicógrafo de New Haven, nos EUA, acreditava que uma das maneiras dos Estados Unidos legitimar sua independência cultural seria por meio da palavra escrita. Um grande entusiasta da reforma linguística, Webster projetou palavras que poderiam ser escritas de formas mais parecidas ao jeito que eram faladas, e esse é um dos primeiros motivos da facilidade maior de entender o inglês estadunidense.

Webster foi o responsável pelo primeiro dicionário de inglês dos EUA, com escrita e gramática, além de livros que implementaram várias ideias sobre como falar uma língua própria do novo país. Sua influência sobre o inglês foi tão grande quanto a dos "pais fundadores" sobre o novo governo (presidencialismo) e a independência dos britânicos.