Artigo: Hora de pensar no retorno e em suas complexidades

Em momentos difíceis, temos que prender com as antigas tribos o real significado de ubuntu

Pois é, de repente nos pegamos numa trajetória complexa e nunca vivida. Uma verdadeira M.U.V.U.C.A. Isso mesmo, um momento que cada vez mais evidencia a MUVUCA que viveremos. Porém, essa MUVUCA  que me refiro é um acróstico, no qual o (M) tem origem no Meaningful – que quer dizer propósito, significado daquilo que fazemos ou faremos; (U) de Universal – do impacto das nossas decisões no coletivo e o coletivo interagindo diretamente sobre nossas vidas; (V) de Volatile – ou seja, do quão volátil e inconstante tornam-se nossas decisões nesse complexo ambiente; (U) de Uncertainty – o quanto incerto tem pela frente, o que representa um desafio absurdo, como a exemplo, o risco de retorno do contágio ou de outras pandemias que se avizinham (segundo os cientistas tem afirmado); (C) de Complex –  o quanto está mais complexo qualquer processo de tomada de decisão, “que caminho seguir?”  – “Quais os cenários que o mercado apresenta?”, e o (A) de Ambiguous – ou seja o ambíguo, instável, inconstante.

Quando usar máscara de pano

Diante desse cenário, que não permite amadorismo, que exige uma grande dose de persistência e comprometimento com a causa, com o propósito que cada um busca, seja a recuperação da empresa, a retomada econômica e em muitos casos, a difícil decisão de interromper uma atividade para “pivotar” em outra direção. Hábitos e comportamentos foram alterados, esteja em estado da consciência ou não, mas nosso retorno exigirá novas formas de pensar e agir sobre decisões simples ou complexas, pois a resposta a estímulos tende a ser diferente do que tínhamos no último verão de 2020 e anteriores.

Os mercados sofreram grandes abalos. O consumidor empobreceu ou está recluso esperando o melhor momento de gastar seus parcos recursos. Logo, exigirá das organizações uma nova forma de se mostrar no mercado, com ações mais inteligentes do ponto de vista de mostrar para o seu cliente o quanto verdadeiramente elas se preocupam com ele, com o meio, enfim, com o tão sonhado mundo em que organizações cederiam para compreender o que é sustentabilidade na prática, que é se preocupar com os aspectos econômico, social, ambiental, cultural e outras interfaces que agora serão latentes.

Por parte das micros e pequenas empresas, dos profissionais liberais, daquelas que sobreviverem em 2020, caberá uma lição que nossos antepassados e tribos antigas nos ensinaram, que é a de nos unir e lutar juntos para encontrar soluções, de forma pacifica, coletiva, na qual possamos dividir um pouco de ganho na competição com as grande organizações, por meio de alianças estratégicas, sociedades específicas, parcerias e outras formas, pois, como nos ensinou uma antiga tribo africana, usam como mantra para sobreviver a palavra ubuntu, que significa “eu sou porque nós somos”; ou seja, eu sobrevivo no mercado porque nós (coletivo) existimos.

Isso remete a uma linda história contada por muitos educadores, que relatam uma passagem em uma aldeia Xhosa (agrupamento africano) em que o educador vindo de fora, de uma cultura urbana, ensinava crianças. Para estimular o aprendizado propôs ao grupo para participar de um jogo. Posicionou uma cesta de frutas em um ponto próximo a uma árvore e ao seu sinal o grupo deveria correr até o local e quem vencesse a corrida ficaria com o prêmio, ganharia a cesta. Dada a largada, todas as crianças imediatamente se deram as mãos e correram juntas até a cesta de frutas e lá chegando sentaram-se sobre a sombra da árvore e todos se deliciaram. O professor ficou perplexo, pois esperava uma competição acirrada e perguntou por que não correram? E eles responderam “Ubuntu” – que também pode ser traduzido assim: “Como alguém pode ser feliz enquanto outros estão tristes?”.

A força do associativismo e do cooperativismo poderá ser uma das respostas a esse momento e, para simplificar, o poder da união entre pequenas empresas capazes de apresentar uma solução ou condições para competir e se recuperar nesse momento delicado, que exigirá cada vez mais criatividade, equilíbrio, calma, pensamento estratégico, desapego e outros comportamentos que ainda não sabemos quais, pois ainda não vivemos essa fase na intensidade… pois estamos começando.

Escrito por Carlos Guedes, empresário, consultor e diretor de Comunicação Social da Acic

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1 comentário

  1. OLAVO ARSENIO FANK Responder

    Palavras sábias de um profissional inserido no meio empresarial mas com visão da unicidade de cada membro em suas visões e aspirações. Somos individualistas sim… mas quando se pensa em bem comum e coletividade saem-se melhor os que saem da teoria e vão à pratica… Participar de entidades e movimentos deveria ser regra e não exceção…