“Temos que em primeiro lugar preservar a vida”

 

Cascavel – Depois de 22 anos trabalhando no 4º Grupamento de Bombeiros de Cascavel, Amarildo Ribeiro, agora com a patente de tenente-coronel, deixa a Capital do Oeste para se tornar o novo comandante do 9º Grupamento do Corpo de Bombeiros de Foz do Iguaçu. Antes de assumir o comando “Terra das Cataratas”, ele conversou com a reportagem do O Paraná, e contou um pouco da sua trajetória que foi marcada principalmente pela a sua atuação à frente de ações do trânsito da cidade.

Amarildo contou que tem “26 anos de casa” e que destes atuou 22 anos em Cascavel. Durante todos esses anos esteve à frente de várias funções dentro do grupamento, respondendo pelos setores de prevenção, operacional, de pessoal, compras, foi socorrista do Siate por anos e, nos dois últimos, atuou como subcomandante.

Devido a sua formação acadêmica em tecnologia de informação, Amarildo ajudou no desenvolvimento do programa Sysbm, que é o sistema integrado do Corpo de Bombeiros com dados de atendimento, que hoje é referência no Estado. Ele se tornou o “amigo da imprensa” quando passou a atuar como chefe de Relações Públicas do 4º GB, sendo uma referência para a busca de informações.

“Tenho muitos amigos na imprensa e isso só aumentou quando criamos o Cotrans (Conselho de Trânsito) a partir de 2010”, relembrou o tenente-coronel. O Cotrans é composto por membros de todos os órgãos ligados ao trânsito e trabalha em três frentes: educação, fiscalização e a engenharia de trânsito. Desde a sua criação, Amarildo Ribeiro atua como coordenador dos trabalhos que visam analisar dados e melhorar a qualidade do trânsito na cidade.

Ele avalia que a atuação do Cotrans refletiu em melhorias no trânsito e as mudanças de comportamento, mas que é um trabalho que precisa ser periódico. Para se ter uma ideia, os óbitos no trânsito são acompanhados pelo Cotrans e tem apresentado crsecimento. 2018 fechou com 46 mortes, 61 em 2019, 69 em 2020 e 2021 registou 65 óbitos. “A população e a frota crescem, por isso, as ações não podem parar”, salientou.

No ano 2017, o Cotrans passou a incorporar o PVT (Programa Vida no Trânsito) e os membros passaram por treinamento com profissionais do Ministério da Saúdem quando mudou a metodologia de trabalho, no qual passaram detalhar dados e acidentes com mortes. “Começamos a estratificar os dados e a trabalhar de forma mais pontual as nossas ações, foi um grande avanço para o grupo e para os órgãos de trânsito”, contou o tenente-coronel.

 

PROBLEMAS NO TRÂNSITO

Sobre os principais problemas no trânsito, Amarildo Ribeiro disse que em Cascavel os acidentes ocorrem principalmente devido ao excesso de velocidade. Em segundo lugar vem a falta de atenção que atualmente é causada pelo o uso do celular ao volante. “Infelizmente se tornou um hábito das pessoas, mas que tira a atenção e provoca muitos acidentes. É só parar em uma esquina e observar a quantidade de motoristas que olham o celular”, alertou.

Em terceiro lugar está o avanço do sinal vermelho, não apenas em vias com semáforos, mas também naquelas sinalizadas e em quarto lugar a alcoolemia. Nesse quesito ele lembrou que um dos resultados positivos do Cotrans foi a conquista da instalação de uma vara específica no Fórum de Cascavel, que julga os acidentes de trânsito da cidade.

O tenente-coronel disse ainda que com a pandemia, se percebeu que um dos problemas que foram agravados foi a quantidade de motociclistas fazendo entregas e a maioria deles sem habilitação ou curso preparatório, o que também impactou no aumento de acidentes e de óbitos. “Sabemos que muitos precisavam ajudar as famílias. É uma questão social, mas que impactou nos casos e nos riscos que correm esses motociclistas que trabalham contra o tempo”, falou Amarildo, completando que em uma ponta está o trabalhador que quer fazer o maior número de entregas e aumentar a renda e, do outro, está o consumidor que quer receber seus produtos com mais rapidez “e isso só aumentou o risco de acidentes”.

 

Cascavel x Foz

Sobre o trabalho do 4º Grupamento de Cascavel, Amarildo Ribeiro disse que tem um capital humano muito forte, pessoas capacitadas e que além disso, a estrutura é uma das melhores do Estado. Outro diferencial de Cascavel é a apoio da comunidade e do Município que desde a criação da taxa de desastres, ajudou no reforço das contas e, com isso, o reflexo é um melhor trabalho para a própria comunidade. “Temos um fundo municipal que atende tanto o Corpo de Bombeiros, quanto à Defesa Civil, e com certeza faz muita diferença nos trabalhos”, afirmou.

Sobre a mudança para a fronteira, contou que vai dar continuidade aos trabalhos do major Antônio Schinda que retorna à Cascavel, integrando o comando regional, que sabe que a cidade também tem um PVT, mas que um número menor tanto de acidentes quanto, de óbitos. Mesmo assim, vai aplicar a sua experiência para melhorar ainda mais os resultados. “Vamos dar seguimento aos trabalhos e tentar melhorar no que for possível”, completou.

 

 

 

Mudanças “afrouxaram” a fiscalização

Experiente, o tenente-coronel Amarildo Ribeiro fez algumas observações sobre as mudanças na legislação de trânsito que ocorreram após 2019, principalmente a retiradas dos radares nas rodovias federais. Para ele, foi uma maneira de “afrouxar” a fiscalização e, diretamente a isso, favoreceu o aumento do número de acidentes e, consequentemente, de mortes. Além disso, a pandemia também restringiu a realização das fiscalizações.

“Discordo das pessoas que falam sobre a indústria da multa, porque o motorista que trafega dentro da lei não é multado. Mas, infelizmente o brasileiro precisa ser, sim, fiscalizado para que se reduzam os acidentes, essa é a realidade”, analisou. Para ele, mesmo com o retorno dos radares nas rodovias, os reflexos disso levam anos para serem notados. “Temos que em primeiro lugar preservar a vida”, reforçou.