Existe uma solução para lidar com as consequências dos abortos induzidos? Para Hellinger, tem, sim, e “consiste nisto, que o filho abortado seja readmitido ou acolhido pela família. Isso acontece por meio do luto pelo filho, o que se mostra através de uma dor profunda do casal. É desse modo que o filho aparece” (Hellinger, B. Mein Leben. Mein Werk, Ariston eBook, 2018).

A dinâmica de luto sugerida acima por Hellinger é que a mulher que abortou diga à criança abortada: “Meu querido filho! Dou um lugar a você em meu coração agora”; ou ainda: “Sinto muito pelo que fiz com você. Assumo a minha culpa e respeito o seu sacrifício”. O importante é reconhecer essa dívida para com o filho: “Tomo de você como um presente e em sua memória farei algo disso”.

Assim, o filho abortado se sente respeitado e sente que sua morte não foi em vão. Quando se tratar de aborto decidido em conjunto pelos parceiros ou quando tiver sido uma decisão do homem, é necessário que também ele pronuncie essas frases solucionadoras. Também é essencial para uma solução duradoura que a mulher perdoe a si mesma pelo que fez.

Segundo Hellinger, um bom exercício consiste em os pais mostrarem interiormente ao filho abortado durante algum tempo – um ano ou dois -, e das mais variadas maneiras, a vida que teria tido com eles. Para “medir” a duração desse tempo, às vezes também se pode plantar um pé de flor em memória do filho abortado. Espera-se até que a planta floresça e murche para marcar o tempo de que agora o que foi é “passado”. Quem faz isso com amor, enfrentará uma dor curativa. Quando chegar o momento, a mãe e/ou o pai se despedem do filho. Depois deve se permitir que acabe. O filho está agora reconciliado.

Em que implica, concretamente, os pais “fazerem algo de bom” com o aborto que provocaram? Certamente, isso precisa ir além de meras palavras. Isso requer ações concretas.

A medida das ações não é dada pelo valor monetário envolvido, e sim pela autenticidade de terem feito tudo o que era possível dentro de suas possibilidades e habilidades. Cada um precisa sentir por si mesmo, em uma atitude de sinceridade interna, de que maneira pode contribuir.

Por exemplo, se alguém não dispõe de recursos financeiros, mas tem habilidades artísticas, musicais, de pintura, ou qualquer outra, pode dedicar um tempo de sua jornada de trabalho para ações voluntárias junto a crianças carentes ensinando-as nessas artes. Quando se trata de alguém que dispõe de recursos financeiros mais abundantes, pode doar parte deles para Instituições Sociais dedicadas a crianças e adolescentes carentes ou abandonadas. Isso mostra como a culpa, apesar de tudo, pode ter também um efeito benéfico sobre a sociedade.

As Constelações Familiares mostram o quanto a alma da criança abortada espera que a mãe assuma o aborto não apenas ela mesma, mas também que o pai assuma o aborto. Muitas vezes o homem tenta se desfazer da responsabilidade transferindo-a totalmente para a mulher. No entanto, a responsabilidade é sempre compartilhada, ainda que caiba à mãe à decisão final uma vez que é do corpo dela que se trata, ou seja, ela pode dizer “sim” quando o pai diz “não”, e pode dizer “não” quando o pai diz “sim”.


JOSÉ LUIZ AMES E ROSANA MARCELINO são terapeutas sistêmicos e conduzem a Amparar.