COTIDIANO

“Jamais pensei que fosse morrer”

24 de dezembro de 2017 às 10:30
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Foram três anos de uma exaustiva caminhada vitoriosa. Jhulya Eduarda Milioransa, hoje com 18 anos, descobriu o câncer, um tipo raro de leucemia, nas vésperas de completar 15 anos.

A menina ativa morava no sítio e foi para a cidade estudar. Do dia para a noite uma dor terrível em uma das pernas se estendeu pelo corpo indicando que algo de errado havia naquele organismo.

Até a confirmação da doença foram inúmeros diagnósticos errados. O veredito veio após os exames com o hematologista.

Do consultório foi direto para a Uopeccan, mas Jhulya ainda não sabia ao certo o que estava lhe acontecendo. “No tratamento, a médica disse que talvez a gente não comemoraria o aniversário de 15 anos, apenas o de 18 anos, porque o tratamento duraria três anos”, lembra.

Começaram então as sessões de quimioterapia. O corte e a queda do cabelo, os tratamentos invasivos, a aproximação com a enfermeira Poliana Deves, que ficou muito conhecida nas redes sociais por protagonizar uma campanha na qual também lutava contra um câncer.

Meses depois o diagnóstico veio a primeira edição do livro Anjos do Bem. Seu poema deu origem ao convite para o lançamento da obra e na data do lançamento, a notícia tão feliz: ela precisava da doação de uma medula e sua irmã mais nova, na época com nove anos, era 100% compatível.

O transplante não poderia ser feito em Cascavel. Jhulya foi para mais uma exaustiva e dolorida jornada, desta vez em Curitiba. Lá, ela passou pelo processo pré-operatório para matar sua medula doente e receber a da irmã, saudável. Cuidados extremos com ambas. Jhulya, já sem a medula e com a imunidade zerada, precisava de cuidados absolutos. Um resfriado poderia ser fatal. A irmã doadora também não poderia adoecer porque isso custaria a doação e, consequentemente, a vida da irmã.

Jhulya precisava de um litro da medula. Por ser muito jovem e magra, os médicos só conseguiram tirar 500 ml e transplantaram mesmo assim. A partir daí, o que parecia enfim a libertação da doença deu origem a um novo drama. “Eu estava em um quarto sem janela, só minha mãe poderia ficar comigo e assim foram durante 60 dias. Dois meses de um tratamento muito dolorido”, recorda.

A recuperação e o milagre

A batalha estava apenas no início. Nos primeiros dias após o transplante, Jhulya passou por um processo de rejeição da medula e efeitos colaterais terríveis. “Eu vomitava tanto que um dia comecei a vomitar a pele da garganta até o esôfago e muito sangue. Estava tudo em carne viva e eu não engolia mais nada. Meu travesseiro estava sempre cheio de sangue. Meu quadro só piorava”, lista.

Jhulya viu o desespero da família aumentar e, com isso, seu sofrimento só crescia. Ela já não se alimentava, não tomava água e o passo seguinte foi não dormir mais. “Não aguentava mais. Após três noites sem dormir, pedi à minha mãe que chamasse a enfermeira para me dopar e eu poder descansar. A enfermeira disse que a médica não estava de plantão e não havia prescrito medicamentos. Pedi então para ela chamar outra médica”, completou.

A partir disso Jhulya passou por uma série de revelações que resultaram em um grande milagre.

Desesperada e vendo a vida da filha ir embora, a mãe foi à capela do hospital. Quando voltou, disse que a filha precisava acreditar nela: “Ela disse que pediu ao Sagrado Coração de Jesus pela minha saúde. Quando ela colocou a mão no coração da imagem, disse ter sentido um coração pulsar na sua mão. Ela se assustou, trocou de mão e o coração continuou a pulsar. Ela voltou aos prantos para o quarto”, conta.

Era o milagre que estava começando. Após pedir a médica no quarto, Jhulya recebeu a visita de uma mulher loira de cabelos encaracolados. Ela tinha um anel de noivado e olhos verdes. Simplesmente segurou em sua mãe e disse: “Fique tranquila, vai dar tudo certo”. “Quando eu a vi senti vontade de falar que ela era muito parecida com a minha amiga Poliana, mas eu não falei nada, só comentei com a minha mãe que ela era parecida e minha mãe disse que não, pois a médica era morena. Aquilo me intrigou muito”.

A visita de uma amiga

Na manhã seguinte, após conseguir descansar mesmo sem remédios, Jhulya foi ao banheiro e pediu o celular para a mãe. “Olhei meu Facebook e vi um monte de foto da Poliana, fui passando sem ler. Resolvi ler um dos post e descobri que Poliana, minha amiga, havia falecido. Foi quando vi um vulto na porta do quarto e pedi para a minha mãe se havia alguém ali. Ela disse que não. Tenho certeza de que naquela noite a Poliana havia estado comigo”. Segundo Jhulya, ambas haviam começado o tratamento contra o câncer juntas.

A recuperação, que não evoluía, teve pelo menos mais um momento de extrema revelação. Jhulya estava muito mal e já precisava da ajuda de oxigênio para respirar. Viu a mãe do lado da sua cama e resolveu tocá-la: “Toquei na mão da minha mãe e pensei que seria a última vez que faria aquilo. Falei para Deus que se ele quisesse me levar que levasse, eu estava preparada. Aí dormi. O que aconteceu a partir dali já não me lembro mais. Só sei porque me contaram”.

Jhulya teria começado um processo de confissão e de remissão com a mãe, como se estivesse falando com Deus: “Minha mãe diz que eu contei tudo o que eu havia feito de errado, as minhas mágoas, os meus erros, tudo. Pedi perdão e disse que eu também havia feito um monte de coisas boas. Após um tempo, eu retornei e encontrei minha mãe chorando muito”, continuou.

Este momento veio seguido por mais um de extrema emoção: “Num desses dias olhei para o sofá onde a minha mãe sentava e vi uma mulher negra. Cabelos escuros, uma pele bonita e usava um manto azul. Ela era jovem e sorria para mim. Pedi para a minha mãe quem era e minha mãe disse que não havia mais ninguém ali. Olhei para o lado e não a vi mais. Nisso, perto da porta havia um local onde as enfermeiras passavam a mão para espirrar o álcool em gel antes de entrar no quarto. Na terceira vez que minha mãe falou que não tinha ninguém ali, aquele spray jorrou sozinho. Minha mãe chorou muito, tenho certeza que a visita ali era a de Nossa Senhora”, relembra, emocionada.

Então, a partir disso, tudo mudou. Jhulya começou a se recuperar muito bem e dias depois recebeu alta. Foi para a casa de apoio até voltar para a sua casa. Se foi fácil a partir de então? “Claro que não”, responde a menina, que vai para o segundo ano do curso de Direito.

Hoje considerada curada da doença, ela afirma que a vida hoje faz muito mais sentido. “Mantive minha fé e sempre soube que iria vencer. O Natal para mim é isso, o renascimento”, concluiu.

 

 

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