Reportagem: Juliet Manfrin

Cascavel – Como é possível pensar em inovação, na indústria e na agricultura 4.0, sem aparatos de infraestrutura, logística e conectividade? Para o setor produtivo do oeste do Paraná, o uso da tecnologia na produção e na transformação está travado, condicionado ao avanço da tecnologia da informação e à internet das coisas. Simplificando: acessibilidade, cobertura e disponibilidade de redes.

Não por acaso a falta de conexão com a internet, as más condições de distribuição e da qualidade de energia elétrica, falta de infraestrutura e logística e o excesso de burocracia integram um importante documento elaborado essa semana na região enviado ao governo federal e que será discutido em um grande fórum nacional da inovação no primeiro semestre de 2020, em Brasília.

O vice-presidente do POD (Programa Oeste em Desenvolvimento) e CEO da Frimesa, Elias Zidek, explica que a busca por uma indústria de ponta e produção de referência passam necessariamente por pontos que hoje, no oeste do Paraná, mesmo sendo considerada uma das regiões mais desenvolvidas do Estado, esbarram em questões básicas e impensáveis para o século 21, como a falta de fornecimento de energia elétrica, picos constantes e inexistência de rede trifásica. “O governo do Estado anunciou recursos para melhorar a distribuição, o fornecimento, mas continua sendo um grande problema que enfrentamos. Parte das propriedades rurais não tem rede trifásica e o resultado disso são quedas constantes e fornecimento com interrupções. Qualquer equipamento ligado à rede de energia, inclusive as máquinas mais caras, queimam com tantos picos e interrupções. Isso ocorre tanto nas propriedades quanto nas indústrias”.

Internet

Outro gigantesco problema está na cobertura de internet. Enquanto o Brasil tenta ingressar na internet 5G, boa parte do campo continua sem qualquer cobertura. “As máquinas e os implementos chegam com tecnologia embarcada, mas no campo não funcionam porque não há sinal de internet. Aí o produtor rural chega em casa no fim do dia e precisa tirar o pen drive para passar os dados ao computador. Isso não pode mais acontecer”, destaca o coordenador-geral de Articulação para Inovação do Ministério da Agricultura, da Pecuária e Abastecimento, Benedito João Gai Neto.

Gai Neto esteve em Cascavel essa semana para participar do Fórum Regional de Inovação Agropecuária, realizado pelo POD e pelo Mapa, com apoio do Sebrae-PR. O evento reuniu pelo menos uma centena de pessoas de todo o oeste que debateram os principais gargalos que travam o desenvolvimento e amarram o setor produtivo. “Sabemos desses problemas de conectividade e o Mapa já está agindo. No dia 13 deste mês será lançada em Brasília, com a presença do presidente Jair Bolsonaro, a Câmara da Agricultura 4.0. A proposta é levar conectividade, infraestrutura a todo o Brasil. É um grande problema enfrentado por todo o País. Assim poderemos trabalhar no aumento da nossa produção em 40% nos próximos dez anos e 70% até 2050 com sustentabilidade, sem aumento das áreas produtivas para que possamos atender as metas da FAO [Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura]”, destacou Gai Neto.

Fóruns por todo o País

Eventos como o de Cascavel estão sendo realizados em série por todo o Paraná e pelo Brasil. Do oeste saiu um importante documento com pedidos dos quais não se pode mais esperar para consolidação dos avanços tecnológicos.

Além de conectividade, infraestrutura e logística, outro ponto essencial que consta no documento é o excesso de burocracia. “Hoje a burocracia trava o crescimento. São tantas exigências que emperram as atividades e nos impedem de crescer. Precisamos que isso mude”, afirma Elias Zydek.

Para Benedito João Gai Neto, além da proposta de desburocratizar, a regra de ouro será o governo não atrapalhar quem quer produzir e se desenvolver: “Os governos não podem atrapalhar quem quer produzir, o caminho precisa ser esse”.

Casado a esse cenário, o diretor do Sebrae-PR Julio Cesar de Agostini apresentou um painel com as potencialidades e as necessidades de aprimoramento quanto à inovação e à tecnologia. Apesar de produzir muito mais em áreas menores e ser referência no setor agro pelo Brasil, tanto na pecuária quanto nos grãos, o caminho a ser percorrido ainda é longo e árduo.

Para Agostini, o levantamento aponta que, apesar das atenções mais voltadas à tecnologia, faz-se necessária uma mudança de modelo mental, estando incisivamente focado na inovação. “Temos ótimos exemplos sendo desenvolvidos na região, mas que ainda não despontam no cenário nacional ou mundial como referência. Por outro lado, estão surgindo inúmeras startups que vêm para resolver problemas, trazer soluções. Precisamos cada vez mais delas casadas às necessidades em todos os setores”, completou.

Dentre os exemplos bem-sucedidos está a startup pensada pelo engenheiro civil Arnaldo Antunes dos Santos Neto. Sua empresa utiliza drones para fazer leituras mais apuradas e detalhadas das condições de grandes áreas agricultáveis, reservas legais, de preservação ambiental e permanente. O que antes era um trabalho moroso, burocrático e muito caro, hoje é feito por um quinto do valor e de forma muito ágil e com muita precisão.

O desafio da sucessão

Se os espaços no mercado vêm sendo supridos pela tecnologia de ponta, outro desafio é pensar nessa evolução, sobretudo voltada ao agronegócio, considerando a sucessão nas propriedades rurais, uma vez que os mais jovens seguem em busca de empregos nos meios urbanos.

Para Benedito João Gai Neto, do Mapa, com mais infraestrutura e conectividade, o êxodo entre os mais jovens vai deixar de existir, incentivando inclusive um caminho contrário, de volta ao campo. “A agricultura voltou a ser um espaço onde as pessoas querem trabalhar. Esse caminho inverso já vem sendo feito e isso deverá se aprimorar”, ressaltou.