Marechal Cândido Rondon – Se por um lado o setor produtivo está fazendo sua parte, tentando driblar e deixar para trás de vez a crise e se estruturar para o desenvolvimento, do outro a infraestrutura, ou a falta dela, pode colocar o Brasil em xeque.

Se o crescimento, estimado em pouco mais de 2,7% para este ano, for mesmo confirmado, o País pode ficar muito próximo ou até mesmo passar por um apagão. A avaliação, feita por especialistas nacionais, tem sido reforçada pelo POD (Programa Oeste em Desenvolvimento) em tom de alerta e quase um pedido de socorro.

A importante frente que envolve diversas cadeias do setor produtivo, a sociedade civil organizada e representantes do poder público está bastante preocupada com o futuro de curto prazo, da produção do oeste e consequentemente do Paraná.

Polo importante da cadeia produtiva e da transformação do agronegócio, agregando valor aos produtos e se solidificando como expoente nas exportações, alguns segmentos da pecuária já estão sofrendo desde a ponta, na propriedade rural, até a indústria.

O estudo que culminou em um balanço energético do oeste do Paraná aponta que hoje, na região, a principal energia utilizada nas duas frentes é produzida por hidrelétricas. Ocorre que há um grave problema na distribuição dela.

Segundo o vice-presidente do POD, diretor-executivo da Frimesa, Elias Zydek, há com frequência picos de fornecimento que têm colocado plantéis inteiros em risco nas granjas de suínos e de aves e nas propriedades produtoras de leite. Há ainda a interrupção da industrialização com as máquinas que param o ciclo e, não raras vezes, se desconfiguram ou mesmo queimam exigindo suas reposições, muitas importadas e que custam milhões de reias. “O estudo que fizemos procurou focar a questão energia elétrica que move a região, mas buscando alternativas, e se concluiu que, pelo menos para a ponta, para o produtor, a energia renovável seria uma alternativa para manter o fornecimento quando a energia elétrica cai. Ocorre que o setor produtivo não tem como investir nisso porque o governo taxa em 27,5% de ICMS esse tipo de produção e seria economicamente inviável”, afirma.

Sem respostas

Há quase um ano o POD enviou ao então governador Beto Richa um pedido para que haja isenção do imposto, mas há quase um ano o setor produtivo espera por resposta. “O que se levantou ainda nesse relatório foi que, do ponto de vista de geração, o Paraná e o oeste geram muito mais energia do que consomem. O problema é que essa energia não está disponível para o oeste do Paraná e um desses problemas é justamente a distribuição, a nossa rede”, explica Zydec, que acrescenta: “Enquanto se vive uma estagnação da economia no Brasil e na região, o País não está crescendo, o problema não aparece tanto, só que mesmo com um consumo estável, há problemas de qualidade de fornecimento. Se crescermos, teremos um problema muito sério”.

A piscicultura não pode crescer

O problema que era mais fortemente sentido pela avicultura, pela suinocultura e pela bacia leiteira, aparece como protagonista em mais uma vítima: a ampliação da piscicultura está completamente ameaçada. Com duas cooperativas investindo pesado nesta cadeia – C.Vale de Palotina com o recém-inaugurado frigorífico e a Copacol de Cafelândia, que já realiza esse processo de industrialização há anos -, a produção de peixes enfrenta esse tipo de resistência à ampliação de novos açudes. “Tudo isso está comprovado com relatórios. A partir disso conseguimos fazer algumas reuniões, pelo menos cinco delas com representantes da Copel, desde a presidência até os setores estratégicos, táticos e da gerência, e nos foi passado que há um plano de investimento”, destacou o vice-presidente do POD, diretor-executivo da Frimesa, Elias Zydek.

Ocorre que, apesar desse plano da companhia, os indícios de que a Copel está se capitalizando para uma possível privatização é um dos temas que também preocupam o setor produtivo. Uma das possíveis intenções seria formar caixa na companhia de modo que ela possa ser “vendida” com mais valor agregado e, para isso, está deixando de investir. Ocorre que essa capitalização hoje de uma estatal em detrimento de uma privatização pode afetar toda a cadeia produtiva que gera empregos, renda e impostos.

A reportagem procurou a direção-geral da Copel no Paraná ainda no início desta semana com uma série de questionamentos acerca dos investimentos, ampliação da rede ou planos de expansão, mas até o fim da tarde de sexta-feira (4) não havia obtido resposta.

Setor produtivo se une e discute o problema

O tema é tão urgente e preocupante que neste momento um grupo de trabalho que reúne POD, Ocepar (Organização das Cooperativas do Paraná), Fiep (Federação das Indústrias do Paraná) e outros membros está pedindo que sejam traçadas as prioridades de investimento no oeste do Paraná, dentre elas e com urgência a do setor energético. “Hoje o que se pede é investimento nas linhas de distribuição, de alimentação. Mas em médio e longo prazo há uma preocupação com a geração. Se o Brasil crescer, vai faltar energia”, reforça Elias Zydek, ao lembrar que não é de agora que aparecem sinais de saturação do fornecimento: “E aí entram os planos de geração alternativa como os incentivos às pequenas centrais hidrelétricas, a mudança na legislação para que elas preencham ao máximo possível as lacunas que existam, há ainda a biomassa, a energia solar. São propostas extremamente viáveis e que precisam ser vistas com prioridade”.

Projetos-piloto

Numa tentativa de alavancar a proposta das energias limpas e renováveis, há poucas semanas a Copel e a Itaipu Binacional assinaram proposta para cinco projetos-piloto em energias renováveis na região. Um deles será numa propriedade em São Miguel do Iguaçu e outras quatro ainda em fase de definição. “Parece pouco, mas esses incentivos estabilizariam as pontas. Aí entra mais uma vez o incentivo com a isenção do ICMS. Projeto este que já foi para a Assembleia [Legislativa] para a Comissão de Energia e o governo anterior [Beto Richa] viria decretar a isenção. O governo que assumiu [Cida Borghetti] se mostrou favorável, mas por enquanto não foi nem aprovado, nem publicado”, revela o vice-presidente do POD, diretor-executivo da Frimesa, Elias Zydek.

Para a indústria

Na indústria, o que se pede é a prioridade dos investimentos da Copel em seus projetos de ampliação da rede de distribuição. “A Copel tem um plano de investimentos até o ano de 2021 e ali está previsto construir os chamados linhões com 138 KW e atender as grandes indústrias, ela tem um cronograma que está executando, mas em marcha lenta. O que pedimos é que ele seja celerado e que se antecipe este cronograma para 2019. Até agora não tem confirmação desta antecipação”, lamenta o vice-presidente do POD, diretor-executivo da Frimesa, Elias Zydek.

Outro ponto que faz o setor acreditar que este será mais um ano sem grandes mudanças nesses investimentos diz respeito ao processo de transição de governos, com as eleições de outubro próximo. “Então o sentimento é que vamos atravessar este ano sem muitas definições estratégicas, mais um ano de atraso que lá na frente vão refletir em mais dois ou três anos de retrocesso”, lamenta.

“O governo se coloca como o responsável para o fornecimento da energia, não incentiva a geração e a distribuição privada e do outro lado não faz o que precisa ser feito. Temos reuniões periódicas a cada 90 dias para avaliação do andamento do plano energético e temos uma postura incisiva de cobrança, que as coisas precisam acontecer. Assuntos como este devem ser a agenda prioritária dos políticos e de todos nós, os empresários estão despertando um pouco mais, mas há necessidade de se cobrar mais”, reforçou.

Esse assunto volta à pauta do POD no dia 15 de deste mês em uma reunião possivelmente a ser realizada em Cascavel.