Toledo – O anúncio feito ontem pelo governo russo de que abre a partir desta quinta-feira (1º) as importações da carne suína brasileira de nove fornecedores anima o mercado regional, tendo em vista que no oeste do Paraná está um dos principais berços da suinocultura brasileira. Contudo, o especialista em mercado e consultor da Suinoeste (Associação regional dos Suinocultores do Oeste do Paraná), Leoclides Bisognin, diz que existem pontos que precisam ser esclarecidos e analisados, o que pede cautela ao mercado produtor.

Segundo ele, é importante saber se a Rússia tem estoque da carne suína, tendo em vista que a partir de agora até fevereiro os navios não consegue atracar nos portos russos devido à geleira que se forma no inverno. “Geralmente quando eles deixam de comprar a carne suína brasileira [desta vez sob alegação de um problema com componentes da ração], o que eles querem na sequência é negociar preço. Sempre foi assim, mas qualquer tonelada que possamos exportar é vantajoso porque a maior parte da nossa produção fica no mercado interno”, reforçou.

O Brasil produz cerca de 2 milhões de toneladas de carne suína e exporta cerca de 500 mil. A Rússia já chegou a comprar sozinha perto desse volume.

Outro fator a ser esclarecido é como será a política voltada às negociações da balança comercial do próximo governo brasileiro. Isso porque o presidente eleito Jair Bolsonaro manifestou em algumas ocasiões que quer retirar o que ele chama de “viés ideológico” das vendas externas, reforçando uma aproximação com os Estados Unidos (leia mais sobre o assunto na página 10 desta edição).

A medida pode prejudicar o comércio com a China, que ao lado de Rússia e Hong Kong respondem hoje por mais de 70% das exportações da carne suína brasileira. E, conforme o especialista, é um produto que dificilmente poderá ser colocado no mercado norte-americano. “Não se pode colocar todos os ovos no mesmo cesto e mercado é mercado. Precisa ser analisado assim. Se eu tenho produto para vender e tem quem queira comprar, pague por isso com bons acordos comerciais, mas não se deixa de vender. Se isso ocorrer, a pecuária brasileira vai sofrer duramente”, alertou.

No oeste do Paraná estão pelo menos três grandes potenciais exportadores, sendo duas cooperativas e um frigorífico privado. E Toledo é, segundo o Censo Agropecuário divulgado pelo IBGE, dona do maior plantel estático de suínos do Brasil. Lá estão quase 1 milhão de cabeças.

A decisão da Rússia e o mercado brasileiro

O órgão regulador de segurança na agricultura da Rússia disse ontem que permitirá importações de carnes suína e bovina de nove fornecedores do Brasil a partir de hoje.

Repercutindo a decisão, diretamente de Dubai, o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, agradeceu ao presidente Michel Temer por ter "se empenhado pessoalmente e a todos os produtores e frigoríficos", além de seu time no ministério e à equipe diplomática no mercado russo. "É difícil abrir mercado, fácil perder mercado, muito mais difícil reconquistar os mercados. Então, estamos todos muito felizes hoje", afirmou. Maggi segue em missão rumo à China, onde participará de evento em Xangai.

O embargo russo se deu em 2017 por causa da presença de ractopamina em produtos de origem animal oriundos de quatro plantas frigoríficas do Brasil. A ractopamina, que não causa danos à saúde, é uma substância permitida no Brasil, mas proibida na Rússia.

Comemoração

Já o presidente da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), Francisco Turra, celebrou a reabertura do mercado russo. Das plantas reabilitadas pela Rússia, quatro são do Rio Grande do Sul, das empresas Alibem Alimentos, da Adele Indústria de Alimentos e da Cooperativa Central Aurora Alimentos, mas as demais não foram informadas pela Associação.

Desde o embargo imposto há quase um ano, a Rússia deixou de importar do Brasil o equivalente a 230,4 mil toneladas – em torno de 40% de tudo o que o País teria exportado no período, tomando como referência as exportações realizadas entre janeiro a outubro de 2017. “A retomada desse mercado tem um significado importante, em especial, pela representatividade que a Rússia desempenhou nos últimos anos, como principal destino das vendas brasileiras”, afirma Turra. “Com o problema sanitário de peste suína africana ocorrente em diversos grandes produtores de carne suína pelo mundo, o Brasil, que não registra focos da enfermidade, tem despontado como possível parceiro na segurança alimentar dos países afetados”, analisa Ricardo Santin, diretor-executivo da ABPA.