Chegará ao fim em 2019 o bônus demográfico: o presente que uma sociedade oferta ao próprio futuro. Aconteceu há meio século, na ditadura, e volta agora: a taxa de aumento da população em idade ativa será mais uma vez inferior ao crescimento da população total.

O aumento da massa de crianças e jovens deveria ter conduzido a um projeto de nação que ao qualificar a piazada garantisse com seu devido preparo o enriquecimento da sociedade em geral antes que o declínio viesse com o envelhecimento da população.

Mas, como lamentava Lupiscínio Rodrigues, pobres moços: “Se eles julgam que há um lindo futuro (…) Saibam que deixam o céu por ser escuro / E vão ao inferno à procura de luz”. O roteiro seguido pela sociedade iludida por astuciosos “salvadores da Pátria” foi o de condenar a mocidade, no paraíso da juventude, a um inferno de impossibilidades.

Estudando crimes por motivos fúteis, chocantes pela violência e incompreensíveis fora de padrões passíveis de ser entendidos por uma origem explicável – passional, vingança, interesses econômicos -, o professor Marcos Rolim se deparou com esta questão: por que alguns jovens pobres cometem assassinatos tão cruéis enquanto outros se encaminham docilmente ao mercado de trabalho, mesmo tendo origem em quadro social semelhante?

A explicação encontrada foi também chocante: os assassinos mais cruéis haviam sido violentados na infância, excluídos da escola e recrutados por adultos que os ensinaram a agir brutalmente. O grosso dos crimes hediondos inexplicáveis seria evitado com uma infância e juventude melhores.

Há pouco, estudando o comportamento da danosa vaquinha verde-amarela, pesquisadores da Universidade Estadual Paulista criaram em Botucatu um modelo matemático para minimizar os danos que elas causam às plantações. Sem prestar atenção ao seu comportamento, desde a infância, até gente vira praga.

“Se um jovem estuda numa universidade pública quatro anos, custará ao Estado 20.000 dólares”, já disse o pastor Jesse Jackson, parceiro de lutas de Martin Luther King. “Mas se cometer um crime e for encarcerado numa penitenciária pelo mesmo período, custará ao Estado 50.000 dólares”.

A pesquisa de Rolim (A formação de jovens violentos – Estudo sobre a etiologia da violência extrema) demonstrou que o desprezo pela integridade física e emocional das crianças “e a falta de uma escola pública forte, capaz de suprir o que lhes falta em casa e na vizinhança em termos culturais e de socialização sadia, são as maiores dívidas do Brasil para com seu povo e dados basais da tragédia que vivemos”, diz o jurista Henrique Judice Magalhães, ex-consultor da Organização Internacional do Trabalho (OIT).Deixar crianças e jovens ao deus-dará custa caro. Os custos diretos da violência relacionada aos jovens consomem ao ano 2,4% do PIB (R$ 240 bilhões), segundo o economista Daniel Cerqueira, do Ipea. Ao perder o bônus demográfico, o Brasil perdeu um futuro que virou passado há mais de meio século. Os moços da época envelheceram sem conhecê-lo.

Alceu A. Sperança é escritor – [email protected]

Deixar crianças e jovens ao deus-dará custa caro. Os custos diretos da violência relacionada aos jovens consomem ao ano 2,4% do PIB