Exigências sanitárias: Determinação pode paralisar suinocultura em alguns meses

Exigências sanitárias nas granjas preocupam setor

Toledo – A Portaria 265, publicada em setembro do ano passado e que passou a valer em novembro de 2018 assinada pela Adapar (Agência de Defesa Sanitária do Paraná), foi um marco à biosseguridade em granjas de suínos e se referenciou pelo pioneirismo no País.

O objetivo é dar mais garantias à prevenção e ao controle de doenças infecciosas nos plantéis, entre elas impedir a chegada de doenças como a peste suína clássica e africana, as formas mais devastadoras da doença que atingiram parte dos países da Ásia no ano passado dizimando milhares de animais e travando mercados inteiros.

Ocorre que as exigências despendidas a partir do documento estão tirando o sono quase que da totalidade dos 5 mil suinocultores da região oeste que, juntos, têm um plantel estático de cerca de 2,6 milhões de cabeças, o que lhes qualifica como um dos principais polos de produção para o Brasil, responsável por 40% de toda a produção da carne no Estado.

Entraves

A preocupação está no curto espaço de tempo para a construção de cercas em volta das granjas, na construção de um ou mais banheiros e vestiários nas estruturas, da implantação do ar de pulverização e outras condições sanitárias que precisarão ser feitas pelos próprios suinocultores até novembro próximo. A inviabilidade se arrasta porque, mais uma vez, o dinheiro está curto diante da queda acentuada de renda desde o ano passado e sem perspectivas de melhora em curto prazo.

Articulação

Vereador de Toledo, especialista no setor e ex-diretor de instituições como Assuinoeste (Associação dos Suinocultores do Oeste do Paraná) e da APS (Associação Paranaense de Suinocultores), Leoclides Bisognin vai nesta terça-feira a Curitiba para se encontrar com o diretor-presidente da Adapar, Otamir Cesar Martins. Na pauta, o assunto que ele mais tem ouvido no campo: pedir para que o prazo para a implantação das medidas sanitárias seja estendido, sob o risco de toda a cadeia ser inviabilizada na reta final deste ano. “Essas exigências são essenciais. A biosseguridade é fundamental, mas quando exigiram as mesmas condições para a avicultura, por exemplo, foi dado prazo de cinco anos, pelo menos, para a implantação de todas as exigências sanitárias, mas agora querem que os suinocultores façam tudo em um ano (…) Não temos um levantamento de quantos [produtores] já conseguiram fazer as mudanças, mas são poucos, bem poucos, e os demais correm o risco de ficar com a produção travada”, alerta.

Isso porque, segundo ele, há entre os riscos a não liberação das chamadas GTAs (Guias de Transporte Animal), impedindo que os animais cheguem às granjas ou que saiam delas para o abatedouro, além de travar o alojamento e o pagamento pelos serviços de engorda e terminação. “As integradoras não poderão alojar mais nas granjas que não obedecerem às normas técnicas”, reforça.

“Vou falar com o diretor-presidente da Adapar em nome dos suinocultores do oeste que precisam da compreensão e de mais tempo para se adequarem. Tanto a Assuinoeste quanto a APS são extremamente favoráveis às regras de biosseguridade, mas estão muito preocupadas com a implantação dessas medidas em tão pouco tempo (…) Claro que se está trabalhando com a segurança alimentar, os suínos são alimento humano, mas hoje se exige mais condições sanitárias para entrar em uma granja do que para visitar alguém em uma UTI [Unidade de Terapia Intensiva]”, criticou.

Dados da cadeia

Segundo dados de 2017 do Deral (Departamento de Economia Rural), o Paraná é o segundo maior produtor de suínos do Brasil, com 828,2 mil toneladas/ano, representando 21,7% da produção brasileira – são 9,2 milhões de cabeças abatidas.

Atualmente, o rebanho de suínos do Paraná é o maior do Brasil, com 7,13 milhões de cabeças. Também ocupa a terceira posição no ranking brasileiro de exportação de suínos. Em 2017 foram exportadas 97 mil toneladas de carne. A renda gerada para o Estado chega a R$ 3,78 bilhões por ano.

No mercado chinês

Outra preocupação para o mercado regional de suínos está na ampliação da compra da carne da China dos Estados Unidos, indicando uma briga comercial menos acirrada do que se esperava entre os dois países. “Toda vez que os Estados Unidos e a China ficam de bem, é o Brasil que sofre porque, nessas condições, vendemos menos carne suína para os chineses, menos soja, menos milho, menos tudo”, reforça Leoclides Bisognin.

Houve uma redução do plantel de suínos na China por causa de surtos de peste suína africana, que tem levado compradores chineses a recorrer à carne suína norte-americana, apesar da disputa comercial entre os dois países.

De acordo com dados do Usda (Departamento de Agricultura dos EUA), exportadores venderam 23,8 mil toneladas do produto para a China somente na semana passada, mais da metade das 50.330 toneladas vendidas globalmente. Essa foi a maior venda de carne suína dos EUA para a China desde abril de 2017, quando foram vendidas 23,9 mil toneladas.

De acordo com traders, os dados indicam que a China terá de recorrer à carne suína dos EUA para atender à demanda interna. “Eles estão comprando soja dos EUA para satisfazer às exigências do presidente Donald Trump, mas parece que precisam mesmo da nossa carne suína”, disse Mike Zuzolo, presidente da Global Commodity Analytics & Consulting.

Nesse caso, o mercado brasileiro pode não ser o beneficiado. O Brasil produz cerca de 2 milhões de toneladas de carne suína e exporta em torno de 20% desse volume, tendo de acomodar o restante no mercado interno.

O mercado sofre ainda com o fechamento do mercado russo, que se deu há dois anos e se esperava a reabertura no ano passado, depois da Copa do Mundo de Futebol, e o mercado mexicano, que chegou a confirmar no ano passado que iria comprar o produto brasileiro, mas até agora não houve fechamentos de contratos desses dois países.

 

Reportagem: Juliet Manfrin



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