A incapacitação de um dos parceiros é sempre um golpe que atinge profundamente o casal. É bem verdade que, em alguns casos, é uma oportunidade para o casal crescer juntos. A regra geral, porém, não é esta. O mais frequente é o parceiro não afetado pelo acidente viver mais intensamente a culpa do que o outro. A culpa, por ser um sentimento paralisante, vitimiza a pessoa, o que a faz permanecer em um estado de inação. Por isso, quando acontece a incapacitação, o sentimento de culpa de abandonar o parceiro não lhe permite seguir em frente. A pressão social faz com que permaneça junto da pessoa incapacitada, pois abandoná-la faria com que se visse como um ser humano egoísta e sem compaixão.

Vamos ilustrar essa situação com um exemplo referido por Hellinger. Ele conta que em um de seus seminários participou uma mulher casada, mãe de três filhos. Seu marido havia sofrido um acidente com cavalo e desde então sofria de uma incapacidade mental grave. Hellinger disse a ela: “você deve tratá-lo como se estivesse morto, como se o casamento tivesse terminado. Você não pode carregar por toda vida as consequências do acidente dele”. Seguindo o conselho de Hellinger, a mulher foi à clínica em que o marido estava internado e disse a ele: “Nos casamos e temos três filhos. Eu respeito você como pai de nossos filhos e guardo você em minha lembrança. No entanto, nosso casamento acabou. Eu me sinto livre agora”. Depois de dizer estas palavras, algo inesperado aconteceu. Embora o marido estivesse mentalmente incapacitado, sorriu e seu rosto resplandeceu naquele momento. Para a alma dele estava tudo bem que a esposa seguisse seu caminho (Hellinger, B. Lograr el amor en la pareja, p. 249).

O exemplo mostra, diz Hellinger, “que a esposa só consegue dissolver o casamento com seu marido gravemente incapacitado assumindo também a culpa e estando disposta a fazer algo que muitos consideram mau” (Hellinger, B. Lograr el amor en la pareja, p. 250). Assumir essa culpa abre caminho para uma solução aceitável tanto para o marido quanto para a esposa. Hellinger continua: “‘Culpa’ não é equivalente a ‘mau’. Muitas vezes é justamente o contrário. Muitas vezes o bom ou o correto produz em nós a culpa e o mau nos dá uma sensação de inocência. Muitos do que permanecem no problema, ou que sofrem numa relação ruim, se sentem inocentes. A passagem desse tipo de inocência para a culpa requer força interior. E unicamente aquele que também encara a culpa pode realizar esta passagem em direção à solução. A recaída no padrão antigo é mais cômoda” (Hellinger, B. Lograr el amor en la pareja, p. 250).

Uma última questão relacionada ao tema: como tratar a situação na qual alguém se enamora por uma pessoa com deficiência? Aqui é preciso examinar a motivação. Se a motivação é se casar por piedade o casamento tem grandes chances de fracassar. Diante da alma existe apenas um motivo capaz de sustentar um casamento: o amor! Quando o amor flui, até mesmo uma parceria entre uma pessoa com deficiência e uma pessoa saudável pode ter êxito. Fora desta motivação está fadada ao fracasso. Outro ponto a ser olhado é o desequilíbrio inevitável entre o dar e o tomar. A pessoa deficiente acaba necessariamente recebendo mais do que toma. A condição de êxito é que a relação entre o dar e o tomar aconteça sem reivindicações de ambas as partes: os dois precisam reconhecer que se uniram conscientes do desequilíbrio e que concordaram com ele.


JOSÉ LUIZ AMES E ROSANA MARCELINO são terapeutas sistêmicos e conduzem a Amparar.

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