Contrabando: Quadrilhas intensificam distribuição de agrotóxicos

Entre produtos registrados e clandestinos, região consome 27 quilos de veneno/ano por habitante

 

Reportagem: Juliet Manfrin

Guaíra – Os dados oficiais revelam que o Paraná é o segundo estado no País que mais usa agrotóxicos nas lavouras, porém, se forem considerados outros números, como os de utilização de produtos contrabandeados, a conta chegaria a indicadores apavorantes.

Somente em 2018, segundo dados da Adapar (Agência de Defesa Agropecuária do Paraná), foram aplicados de forma registrada quase 93 mil toneladas nos 399 municípios. Desse volume, 20% ficou na região oeste, com 18 mil toneladas destinados a pouco mais de 1 milhão de hectares agricultáveis em dois ciclos de cultivo naquele ano.

A maioria dos defensivos, quase 57%, foi para as culturas da soja. Dos registros feitos no Siagro (Sistema de Monitoramento do Comércio e Uso de Agrotóxicos no Estado do Paraná), 62,8% se referem a herbicidas, seguidos dos fungicidas, que representaram 15,5%. Mais de 27% de tudo o que foi consumido no ano passado se referia a algum tipo de glifosato, como o ácido equivalente (14,7%), o próprio glifosato (6,7%) e o glifosato potássico (6,2%).

Mas por que esmiuçar esses dados? Com o avanço do plantio da safra de verão neste momento, não por acaso têm aumentado expressivamente as apreensões do produto que entra ilegalmente no Brasil vindo do Paraguai.

Na semana passada, por exemplo, um homem foi preso após fugir de uma abordagem na BR-272 entre Guaíra e Umuarama. Ele transportava meia tonelada de agrotóxicos contrabandeados e tentou diversas manobras para despistar a fiscalização, inclusive dirigiu em alta velocidade, trafegou pela contramão, utilizou um dispositivo de fumaça acoplado ao carro blindado e tentou atropelar dois policiais. No fim, foi preso em ação conjunta da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal e do Exército Brasileiro, quando tentou dar sequência à fuga a pé. Indiciado, ele poderá ser condenado a até 40 anos de detenção considerando todas as infrações cometidas.

Caso que provocou reação das forças policiais: “A Polícia Federal alerta que está aumentando o combate aos crimes transfronteiriços e que esse tipo de conduta será duramente reprimido, com a utilização dos recursos e forças necessárias”, alertou a Polícia Federal.

E esse caso está longe de ser isolado.  No mês passado, a própria Adapar, com ação da Força Verde, apreendeu 8,5 toneladas de agrotóxicos líquidos, granulados e em pó em Paranavaí, no noroeste. “A Adapar alerta que o uso de agrotóxicos só é permitido quando adquirido em comerciantes registrados, mediante a prescrição de Receitas Agronômicas, emissão de Nota Fiscal, e a comercialização e o armazenamento desses produtos não podem ocorrer sem o devido cadastramento na própria Adapar”.

As associações que representam o segmento alertam: as estimativas indicam que para cada quilo do produto utilizado legalmente, outro é aplicado de origem ilícita. Na prática, isso indica que no Paraná podem chegar a 186 toneladas aplicadas por ano e, na região oeste, algo próximo a 36 mil toneladas.

Considerando duas safras por ano, cada hectare agricultável do oeste pode estar demandando até 21 quilos de agrotóxicos. Segundo o IBGE, o oeste planta em cerca de 1,7 milhão de hectares considerando os dois ciclos de cultivo, de inverno e de verão.

Os números refletem ainda outro ponto preocupante. É como se cada um dos 1,315 milhão de habitantes que vivem nos 50 municípios da região consumissem 27 quilos de veneno por ano, mais de dois quilos por mês. Somente os dados oficiais consideram algo superior a 13 quilos/ano por morador.

10 dos 30 que mais aplicam veneno estão na região

 

Cascavel – Dos 30 municípios que mais utilizaram agrotóxicos em 2018, segundo a Adapar, dez são da região oeste, inclusive o líder estadual consta nessa lista.

Em Cascavel, onde mais se fez uso desses produtos no ano passado em todo o Estado, foram usados 1.873 toneladas em 198,5 mil hectares agricultáveis. Oficialmente, foram 9,43 quilos por hectare.

A lista regional cita ainda Toledo, que ocupa a quinta posição do ranking estadual, com 1.375 toneladas em 134,3 mil hectares agricultáveis, média de 10,2 quilos por hectare. Em sexto no Estado e em terceiro na região está Assis Chateaubriand, com quase 1.342 toneladas em 143 mil hectares agricultáveis, 9,3 kg/h.

No oeste, o município que mais usou veneno proporcional à área cultivável foi Marechal Cândido Rondon, com 737 toneladas em 60,1 mil hectares plantados, média de 12,2 kg/h.

Vale lembrar que esses números podem dobrar ao se considerar a aplicação ilegal.

Na lista aparecem ainda Palotina, São Miguel do Iguaçu, Terra Roxa, Corbélia e Santa Helena.


Grandes centros de distribuição

Além de estarem próximos geograficamente da fronteira com o Paraguai, esses municípios do oeste têm outra condição em comum: a proximidade com os centros de distribuição dos agrotóxicos contrabandeados.

O Jornal O Paraná apurou que uma investigação em curso, unindo forças de segurança e seus respectivos serviços de inteligência, vai fechar o cerco contra os grupos criminosos. O momento oportuno seria exatamente este, obedecendo à sazonalidade do crime. O transporte aumenta expressivamente agora com o cultivo da safra por todo o País.

Unidades de distribuição mapeadas nas regiões de Guaíra, Santa Tereza do Oeste, Cascavel, Corbélia e Ubiratã indicam que os grupos podem ser os que fornecem o maior volume de agrotóxicos contrabandeados por todo o País.

O desmantelamento de uma quadrilha neste ano na região de Guaíra indicava a rota do bando que abastecia mercados como o do Centro-Oeste, o Norte, o Sul e o Sudeste brasileiro, onde estão as principais concentrações produtivas de grãos.

As apurações vão além, indicando um número expressivo de produtos que têm a comercialização proibida no Brasil há anos.

Outro alerta vai para o manuseio e a falta de rastreabilidade do produto. Como a maioria dos ilegais vem da China, nem sequer é possível identificar a composição ou a forma de aplicação.

Destaque também para o volume considerável de defensivos falsificados.

As forças de segurança querem saber também se há e como opera o envolvimento de agentes públicos na compra, venda e distribuição.

 

 



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