Sob um clima de dor e revolta, foi sepultada na tarde de ontem, no Cemitério do Bairro Guarujá, Marem Lidiane Biavati. Ela morreu na tarde de segunda-feira na recepção da UPA (Unidade de Pronto-Atendimento) Veneza à espera de atendimento médico.

Muito abalado, o pai da jovem, Faustino Luiz Biavati, não escondia sua indignação. Para ele, faltou atendimento digno e disposição dos servidores: “Ficou visível a má vontade, a estupidez, a falta de prestatividade e a falta de competência técnica. Colocaram pessoas inabilitadas para fazer avaliação de um paciente com problema cardíaco. A pessoa olha para a mulher tendo um infarto e avalia que ela não está correndo risco. Qualquer pessoa devidamente qualificada reconhece os sinais de um infarto. Poderia ter acontecido de não conseguirem salvar a vida dela, mas pelo menos um atendimento digno eles tinham o dever de ter oferecido”, desabafou.

Marem iria completar 37 anos neste domingo (23). Era mãe de um rapaz de 17 anos e uma garota de 15. “Ela levava uma vida apertada, trabalhando sempre, tinha recém começado em um novo emprego. Era uma pessoa honesta, trabalhadora e decente e que teve uma morte estúpida por causa de mau atendimento”, acrescentou o pai inconformado.

O tio Alfeu Ramiro Baviati disse que, apesar da revolta, a família não tem estrutura emocional para decidir o que será feito em relação ao caso: “A gente vai estudar ainda, sentar e analisar a situação com toda a família para decidir o que vamos fazer”.

“A gente corria implorar para que ela fosse atendida”

A história contada pelos familiares que acompanharam Marem Biavati na UPA, segunda-feira, é um relato de total descaso. Segundo a família, Marem foi trabalhar na segunda, mas voltou a passar mal e pediu ao seu compadre Rogério Carneiro para levá-la à UPA. Eles chegaram por volta das 9h40. Era cerca de 15h50 quando ela morreu, ainda sem ter sido atendida.

Rogério conta que não viu ninguém em estado mais grave no local que justificasse as tantas negativas de socorro aos apelos para que ela fosse atendida. “A sala encheu e esvaziou várias vezes e ela ficava sentada lá. Fomos várias vezes, eu, a mãe dela e a filha dela até a recepção falar com a enfermeira que fez a triagem, mas sempre diziam a mesma coisa: que a prioridade era verde, sem risco e que tinha que esperar. Vira e mexe ela ficava com a boca roxa, com a mão roxa, e a gente corria na recepção ou até lá dentro implorar para que ela fosse atendida e eles respondiam que ela estava com os sinais vitais normais e que era só um pouco de pressão alta, então não era urgente”, detalha.

A família conta que desde domingo, quando Marem procurou ajuda médica pela primeira vez, ela já relatava fortes dores no peito.

O laudo médico não foi divulgado, mas para a família disseram que ela foi vítima de tamponamento cardíaco, que é um aneurisma descendente da aorta e que exerce pressão sobre o coração e o impede de ser preenchido como deveria.

Apuração dos fatos

A Secretaria da Saúde de Cascavel se posicionou sobre o ocorrido apenas por meio de notas. Na segunda-feira, informou que, “enquanto [Marem] aguardava, o quadro evoluiu para uma parada cardiorrespiratória, sendo prontamente atendida pela equipe médica. Todos os esforços foram realizados a fim de reverter o quadro, porém, a mesma não resistiu, sendo registrado o óbito às 15h50.”

Ontem, em outra nota informou que havia sido iniciado “trabalho de apuração detalhada dos fatos e que toda a documentação relacionada ao histórico de atendimento da paciente foi reunida e está sendo profundamente analisada. Também estão sendo convocados e ouvidos todos os profissionais da equipe multidisciplinar envolvidas no atendimento da paciente.”