Bloqueio no Rio Paraná: Sem cigarros, PF já prevê confronto armado

Operação freia a entrada de R$ 1,5 bilhão em produtos ilegais

Reportagem: Juliet Manfrin

Guaíra – Há cerca de dois meses uma ação integrada no Rio Paraná envolve a Polícia Federal das delegacias de Guaíra, de Naviraí (MS) e Maringá, a Força Nacional, o Exército Brasileiro, o grupo Cobra do BPFron (Batalhão de Polícia de Fronteira), a Secretaria de Operações Integradas do Ministério da Justiça e Segurança Pública e a PRF (Polícia Rodoviária Federal).

Com o fim da Operação Muralha no início desta semana, as atividades no rio passam a ser intensificadas por toda a fronteira do Brasil com o Paraguai e essas medidas têm freado de forma expressiva o contrabando e o tráfico feito por via fluvial.

Coordenada pela Delegacia da Polícia Federal de Guaíra – região por onde entra a maior parte do cigarro contrabandeado que abastece o mercado brasileiro -, a operação envolve desde o monitoramento constante do rio até o impedimento da entrada de ilícitos.

Segundo o delegado-chefe da DPF de Guaíra, Júlio Mitsuo Fujiki, contrabandistas e traficantes que usavam o leito para ir e voltar, desde o Paraná até Rosana, interior de São Paulo, tiveram de cessar as operações.

“Nossas ações se iniciaram ainda no começo do ano, mas há 60 dias bloqueamos o rio e estimamos que somente nesses 60 dias já se evitou que R$ 1,5 bilhão em produtos contrabandeados entrassem no Brasil”, estima.

Motivo pelo qual, revela Fujiti, há falta desses produtos no mercado, inclusive cigarros paraguaios até mesmo em diversas cidades paranaenses. “Na região norte do Estado, em Londrina, a informação que temos é de que falta o produto e, por isso, um maço desse cigarro, que antes era vendido por R$ 3,5, R$ 4, já custa R$ 7 em alguns pontos”, informa.

Clima tenso

Como a operação não tem data para acabar, as forças de segurança trabalham com a possibilidade de contrabandistas e traficantes, que começam a ficar desesperados com o rombo financeiro, partam para o enfrentamento. “Deixamos claro que, se houver esse enfrentamento diante do desespero que eles estão vivendo, estamos preparados, fortemente armados e equipados para dar resposta”, alertou o delegado, ao lembrar que o único episódio com vítimas foi em março passado, quando um agente foi alvejado, sem gravidade, na região de Altônia durante um flagrante a contrabandistas.

Contrabando via terrestre

O delegado Júlio Mitsuo Fujiki lembra ainda que é sabido que, quando se fecha uma porta, os criminosos buscam outras. E os criminosos tentam intensificar a entrada de cigarros por via terrestre. Neste ponto entra mais intensamente o trabalho da PRF, que tem montado bloqueios nas rodovias e acirrado as vistorias por toda a fronteira. “Isso já resulta em um aumento muito expressivo de veículos apreendidos com cigarros (…) sabemos que os cigarros, os eletrônicos, abastecem o mercado brasileiro, mas a gente quer segurar aqui, na fronteira, também o tráfico de drogas e de armas. O mercado do contrabando abre caminho para outros crimes que abastecem o País”, destacou.

Quadrilhas investem em mais de 300 olheiros

Com quadrilhas cada vez mais especializadas, a profissionalização dos negócios virou o ponto-chave do mercado bilionário do contrabando e, por consequência, do tráfico. Estima-se, segundo a Polícia Federal, que somente de Guaíra até Rosana (SP), por todo o leito do rio, esses grupos tenham um verdadeiro exército a seu serviço: são pelo menos 300 olheiros. Cabe a eles identificar as ações da polícia avisando as quadrilhas que, rapidamente interrompem os “trabalhos”. “Somente em Oliveira Castro [distrito de Guaíra], existem cerca de 80 olheiros”, revela o delegado Júlio Mitsuo Fujiki.

As vias fluviais são os principais caminhos buscados pelas quadrilhas para entrar com contrabando, por vezes drogas e armas no Brasil. As lanchas, geralmente superpotentes e com pilotos experientes e bem equipados, saem abarrotadas do outro lado da fronteira, sobretudo no período da noite, e atracam do lado de cá em portos clandestinos, às margens do Rio Paraná. Esses portos, como já mostrados inúmeras vezes no Jornal O Paraná, são apenas clareiras na mata ciliar e nativa, às margens do rio, caracterizando mais um crime, desta vez o ambiental. Com frequência esses portos são destruídos pela PF, mas as quadrilhas abrem outro ao lado. Na espera dessas lanchas, ficam os chamados batedores de caixas que operam como carregadores, entre eles muitos adolescentes cooptados pelo contrabando na região lindeira ao lago.

Vans e carros de passeio saem das margens dos rios acomodando a mercadoria para depósitos em vários pontos da região. Deles os carregamentos seguem para abastecer o sedento mercado brasileiro em caminhões, ou veículos de passeio, geralmente roubados ou furtados.

O contrabando do cigarro é tão lucrativo que até as grandes facções criminosas brasileiras passaram a praticá-lo mais intensamente nos últimos dez anos. Uma forma rentável para fazer caixa com carregamentos milionários e que, com frequência, escondem drogas e armas. Uma carreta pode levar mais de R$ 1 milhão em cigarros.

Isso também impacta nos caixas públicos. Segundo pesquisa realizada no ano passado pelo Instituto Ibope, 54% dos cigarros consumidos no Brasil são ilegais, gerando uma evasão fiscal de R$ 11,5 bilhões por ano.

Base móvel – Catamarã vira central de comando

Na Operação Bloqueio, que não tem data para acabar, os agentes têm utilizado uma base móvel que serve como uma grande aliada no monitoramento do Rio Paraná. Trata-se de um catamarã que chegou a ser usado como atrativo para o turismo no entorno do Lago de Itaipu, mas que, por suspeitas de pertencer a pessoas ligadas ao crime, foi apreendido. A estrutura agora abriga a central de comando no enfrentamento à prática por todo o leito do Rio Paraná.



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