São Miguel do Iguaçu – Sem uso há três anos, os Vants (Veículos Aéreos Não Tripulados) deixarão a sede na tríplice fronteira (Brasil, Argentina e Paraguai) para ocupar espaços aéreos definidos pela FAB (Força Aérea Brasileira). A decisão foi publicada no Diário Oficial da União no dia 8 de janeiro e pegou de surpresa os agentes da PF (Polícia Federal), responsáveis e treinados para operar os equipamentos.

Os Vants adquiridos há dez anos são considerados fortes aliados no combate ao tráfico de drogas, armas e contrabando. As aeronaves permitem voos altos – são imperceptíveis – e capturam imagens de alta qualidade sobre o Lago de Itaipu e o Rio Paraná. Enviam informações à base para que os agentes de terra possam agir prontamente.

Como foram pagos com verbas da PF, e bastante, a corporação não gostou da decisão tomada de maneira arbitrária pelo ex-presidente Michel Temer (MDB) no fim do seu governo e sem comunicar ninguém. “O investimento foi alto. Se os Vants voltarem a operar, devem voltar a operar para a Polícia Federal. Alguém tem que responder pelos milhões de reais jogados fora. Não importa se é no hangar do Ministério da Justiça ou da FAB”, critica Bibiana Orsi, presidente do Sindicato dos Policiais Federais do Paraná.

Projeto milionário

Após fase de testes, as aeronaves começaram a ser usadas em 2011. Fizeram poucos voos – em 2014 e 2015 – e desde 2016 estão parados em um hangar em São Miguel do Iguaçu, sem que ninguém tenha acesso.

Comprados de Israel, a PF desembolsou cerca de R$ 145 milhões com o projeto. As duas aeronaves estão sem serventia alguma, pois dependem de manutenção para que voltem a operar – o custo de especialistas israelenses para esse serviço é de R$ 2 milhões.

Na época, a PF desembolsou US$ 27,9 milhões para a empresa israelense IAI e investiu em treinamentos dos pilotos para os Vants.

O plano inicial era adquirir 14 aeronaves para atender todo o País, com formação de 45 pilotos, mas só dez foram capacitados.

“Essa é uma tentativa de sepultar definitivamente os projetos, retirando os Vants da nossa região, onde efetivamente eles têm uma eficiência muito maior, pois atuam diretamente no controle da criminalidade de fronteira. Nossa dúvida é quanto ao uso. Não faz sentido transferir as aeronaves à FAB. Bastava investir em manutenção para que elas voltassem a ser usadas”, reclama Bibiana.

A capacidade dos Vants não se compara à de nenhum drone, porque tem mais qualidade, autonomia e segurança para o policiamento de fronteira.

Conforme a PF informou em nota, o acordo com a FAB objetiva "a otimização dos recursos e do custeio dessa ferramenta e a franca economia de recursos públicos".

O acordo atenderia às necessidades operacionais da PF. A corporação ainda ressalta que PF e FAB mantêm projetos e ações de cooperação e atuação coordenada.

PF prepara ação urgente

Os aviões não tripulados serão entregues à FAB em breve, mas, por enquanto, permanecem no hangar em São Miguel do Iguaçu – região considerada estratégica.

A categoria da Polícia Federal pretende articular um encontro emergencial com o ministro da Justiça, Sérgio Moro, e até mesmo uma intermediação do novo presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), para evitar a transferência. “Os discursos do presidente e do ministro da Justiça são favoráveis ao fortalecimento da segurança da fronteira, por isso, pediremos que as aeronaves permaneçam na PF, e com recursos para operar”, adianta Bibiana Orsi, presidente do Sindicato dos Policiais Federais do Paraná.

 

FAB diz que objetivo é otimizar recursos

Em nota, a assessoria da FAB (Força Aérea Brasileira) informou que a cessão de uso de Aeronaves Remotamente Pilotadas (ARP) – os Vants – da Polícia Federal para a FAB tem por objetivo a otimização de recursos, especialmente envolvendo aspectos logísticos e de manutenção. "A celebração do termo foi feita a pedido da Polícia Federal. O acordo também prevê repasses financeiros, que serão executados por meio de Termo de Execução Descentralizada para a manutenção dos equipamentos. Os ARP em questão executam missões de reconhecimento, portanto, não envolve capacidade bélica."

A assessoria diz ainda que o acordo prevê que a operação dos equipamentos será conjunta. "A colaboração entre a FAB e a Polícia Federal, bem como demais órgãos de segurança pública, não é uma novidade. ARPs da FAB já foram empregados em apoio a diversas operações de segurança pública e órgãos de inteligência. O mais recente ocorreu durante a Garantia da Lei e da Ordem no Rio de Janeiro."

E conclui: "A FAB emprega ARP, ininterruptamente, há cerca de dez anos, incluindo operações conjuntas interagências, como a Ágata – conduzida pelo Ministério da Defesa. Portanto, o acordo em questão vai permitir que a experiência operacional, doutrinária e logística da FAB siga sendo utilizada em prol da sociedade brasileira."

 

*Texto editado às 11h49 do dia 17 de janeiro para inclusão da manifestação da FAB