Na postagem anterior, refletimos sobre a necessidade de aceitar os sogros. Mostramos que, ao rejeitá-los, estamos, na verdade, rejeitando nosso cônjuge. Obviamente, isso não significa que não se possa contradizer os sogros quando necessário. A questão é outra: com qual sentimento os criticamos, se é com respeito ou com desprezo.

No entanto, algumas vezes o conflito do casal acontece porque, para o cônjuge, o relacionamento dele com seus pais vêm antes dos compromissos com sua própria família. Como já dissemos em reflexões anteriores, isso é uma inversão de ordem: o novo sistema tem prioridade sobre o sistema anterior. Assim, por exemplo, quando um casal assume em sua nova casa o pai ou a mãe de um dos cônjuges, essa pessoa não pode determinar o modo como o casal organiza sua vida, educa seus filhos, reparte as tarefas etc.

Esse é caso de um casal que procurou aconselhamento porque a mãe do marido ordenava à nora o que deveria cozinhar para seu marido. Criticava o modo como ela decorou a casa e exigiu que colocasse imagens religiosas nas paredes. Falava mal dos netos na frente da nora e ordenava ao filho que “tomasse providências” para educar corretamente seus filhos.

Por mais difícil que seja para o parceiro contradizer o pai ou a mãe que mora com ele (ou que frequenta a casa assiduamente) naquilo que contradiz os novos combinados do casal, ele precisa fazer isso, sob pena de levar o casamento à falência. Nem o filho nem a nora devem agir segundo a vontade dos respectivos pais. O respeito aos pais e aos sogros não implica na obrigação de adotar os costumes deles!

Sim, é preciso honrar pais e sogros. No entanto, quando alguém constitui uma nova família e esta se organiza em base a valores diferentes dos da família de origem, assume novos valores e modos de educação dos filhos, isso não é deixar de honrar os pais. E a razão disso é porque o novo sistema (a família atual) tem prioridade em relação ao antigo (a família de origem).

Quando os pais decidem viver com a família do filho, perdem o “direito” de determinar de que modo a família do filho conduz sua vida. Obviamente, nessa situação, é sempre necessário ponderar respeitosamente com os pais essas diferenças.

Algumas vezes acontece também, quando o relacionamento de um casal entra em crise, de um dos parceiros dizer: “Sabia que jamais deveria ter-me casado com minha esposa, mas o que eu podia fazer se meus pais só aceitavam essa mulher como nora?”. Somente um adulto pode decidir se casar. Ainda que os pais queiram interferir na escolha a ponto de, por exemplo, ameaçar com deserdar caso não concorde com as condições impostas, o único responsável pela decisão continua sendo o filho/filha. Ninguém pode obrigar quem quer que seja a se casar com quem não quer! Aquele que se prende a frases como a citada para justificar o fracasso da relação revela seu atraso no desenvolvimento psicológico. Apenas crianças devem fazer o que os pais mandam.

Obviamente, não é fácil agir contrariamente aos desejos de seus pais, porque gera um sentimento de culpa escolher um caminho diferente do pretendido pelos pais. No entanto, assumir essa culpa promove o amadurecimento psicológico e permite que a pessoa amadureça. Adultecer é tomar sobre seus próprios ombros a responsabilidade integral das suas decisões.


JOSÉ LUIZ AMES E ROSANA MARCELINO são terapeutas sistêmicos e conduzem a Amparar.

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