
Cascavel e Paraná - Entre a colheita farta e o preço contido, o produtor de soja entra em 2026 com um dilema claro: vender agora ou esperar. No Oeste do Paraná, onde as lavouras confirmam produtividade elevada, a postura é de cautela quando o assunto é vendas futuras. Com um mercado que dá poucos sinais de reação e custos que seguem pressionando a margem, a decisão de travar vendas futuras tem sido adiada. “O produtor está mais defensivo”, resume o consultor em gerenciamento de risco da StoneX, Étore Baroni, ao analisar o cenário durante o Dia de Campo de Verão da Copacol, em Cafelândia. Na oportunidade, concedeu entrevista à equipe de reportagem do Jornal O Paraná.
Segundo Baroni, o ambiente global ajuda a explicar esse comportamento. A combinação de uma boa safra norte-americana, colhida no segundo semestre do ano passado, com o bom desempenho da produção brasileira e sul-americana em 2025 e 2026, forma um quadro de ampla oferta. “A gente vem de uma sequência de produções muito boas, tanto de soja quanto de milho. Isso limita bastante qualquer expectativa de grandes altas”, afirma Baroni. Na prática, o consultor projeta preços próximos aos atuais ao longo do ano, oscilando, conforme o período, entre R$ 115 e R$ 125 a saca.
Esse patamar, embora não empolgue, também não indica colapso. O diferencial da safra atual está no campo. A produtividade elevada, já observada nas primeiras áreas colhidas, contribui para sustentar a rentabilidade, mesmo sem avanços expressivos nas cotações. “O preço não deve surpreender, mas a produtividade ajuda a fechar a conta”, pondera Baroni. Ainda assim, o produtor segue resistente em fixar negócios antecipados, especialmente após anos consecutivos de queda nos preços.
A retração nas vendas, contudo, traz efeitos colaterais. Com uma safra grande e um volume significativo de soja ainda não comercializado, a pressão tende a se deslocar para a logística. O acúmulo de produto no primeiro semestre eleva custos de armazenagem e transporte, reduzindo a competitividade e, em muitos casos, afetando negativamente o preço recebido na origem. “Quando todo mundo vende ao mesmo tempo, o gargalo aparece. E isso pesa no bolso do produtor”, alerta o consultor.
No campo político e internacional, temas que frequentemente geram ruído no mercado, Baroni adota um tom pragmático. Questionado sobre eventuais impactos de posições do ex-presidente norte-americano Donald Trump em relação à Venezuela, ele é direto: o efeito, hoje, é praticamente nulo para o agronegócio brasileiro. “O que pode pesar mais à frente é a geopolítica de forma ampla, conflitos entre países. Mas, neste momento, o impacto no mercado interno é zero”, afirma.
Milho desponta como protagonista
Se a soja caminha em um terreno mais estável, o milho desponta como protagonista nos próximos anos. Para Baroni, o cereal vive um novo momento, impulsionado por uma demanda interna que cresce em ritmo acelerado. Além do consumo tradicional para ração, ligado à expansão da produção de proteínas animais, o milho ganhou um novo e forte concorrente: o etanol. “Hoje já falamos em algo próximo de 30 milhões de toneladas de milho destinadas ao etanol em 2026. Isso simplesmente não existia cinco ou seis anos atrás”, destaca.
Essa mudança estrutural deve gerar um mercado mais disputado dentro do país, com reflexos positivos sobre os preços do milho no médio prazo. Diferentemente da soja, cuja dinâmica depende fortemente do cenário externo, o milho passa a ter no consumo doméstico um fator decisivo de sustentação.
Mesmo em um ambiente de preços ajustados e margens mais apertadas, o Brasil segue com papel central no abastecimento global. O país é o maior produtor e exportador mundial de soja e ocupa posições de destaque também no milho, como terceiro maior produtor e segundo maior exportador. “O Brasil é peça-chave no cenário mundial. Isso traz responsabilidade, mas também oportunidades”, conclui Baroni.
Diante desse quadro, a cautela do produtor de soja não é apenas estratégia, mas reflexo de um mercado que exige planejamento fino, leitura constante dos custos e decisões cada vez mais técnicas. Em um ano de lavouras cheias e preços contidos, vender bem pode ser tão desafiador quanto produzir.