Entenda a medida da China sobre as exportações de carne bovina do Brasil e seu efeito no agronegócio brasileiro - Foto: IDR-Paraná
Entenda a medida da China sobre as exportações de carne bovina do Brasil e seu efeito no agronegócio brasileiro - Foto: IDR-Paraná

Brasil - Mais uma notícia bombástica coloca à prova a resistência do agronegócio brasileiro. No último dia de 2025, a China surpreendeu a todos a anunciar uma sobretaxa de 55% das exportações de carne bovina do Brasil que exceder 1,1 milhão de toneladas. Tal medida fará com que o Brasil exporte menos ao país asiático. Somente no ano passado, o Brasil exportou para a China entre 1,5 milhão e 1,7 milhão de toneladas de carne bovina.

Em entrevista concedida à equipe de reportagem do Jornal O Paraná, o médico-veterinário Cleber Rayzer do Carmo, comentou que a medida não terá impacto direto no preço da arroba do boi no mercado interno em curto prazo. De acordo com o especialista, a estratégia chinesa é clara: proteger e estimular o consumo de sua própria produção de carne suína, setor que passou por uma rápida e robusta recuperação nos últimos anos.

Para entender a taxação, é preciso olhar para o passado recente da China. Há cerca de cinco anos, o país asiático enfrentou surtos severos de gripe suína e peste suína clássica, que dizimaram aproximadamente 30% de todo o plantel. A escassez forçou o País a importar grandes volumes de proteína animal. No entanto, o cenário mudou. “O plantel suíno deles é gigantesco [China]. Eles criam em um sistema de ‘apartamento’, como se fossem prédios de 15 andares com suínos uns sobre os outros”, explica Rayzer.

O médico-veterinário destaca a agilidade biológica e tecnológica da suinocultura chinesa como fator determinante para essa virada. O ciclo de produção é rápido: são 114 dias de gestação somados a quatro meses de engorda.

“Você compra uma matriz e, em cerca de sete meses, o sistema já está rodando normalmente, com o animal pronto para o abate”, detalha Rayzer. Com a oferta interna restabelecida, o governo chinês busca agora direcionar o consumidor local de volta para a carne suína, tornando a carne bovina importada mais cara ao consumidor final lá na China.

Maior fornecedor

Embora o Brasil seja o maior fornecedor de carne bovina para a China, a sobretaxa não é uma retaliação exclusiva. Países como Índia e Austrália também foram afetados. Segundo Rayzer, apenas duas nações ficaram isentas da nova restrição tarifária: Chile e Bolívia.

O especialista ressalta que o custo dessa sobretaxa recairá, majoritariamente, sobre o comprador chinês. “Eles vão sobretaxar para os consumidores deles. O preço vai subir lá no mercado interno”, afirma.

Quanto ao impacto no bolso do brasileiro, Rayzer é cauteloso. Ele não descarta uma queda no preço da carne bovina no Brasil, mas alerta que, se isso ocorrer, não será por causa da sobretaxa chinesa.

“Pode ser que o preço da carne baixe por outros motivos, como o fato de o nosso mercado interno não estar suportando os preços atuais e a crise econômica instalada no país”, analisa. Para ele, a dinâmica de preços domésticos está, neste momento, desvinculada dessa barreira comercial específica.