Premiado em Havana, longa de Jonás Cuarón é metáfora sobre ódio e medo

deserto.jpgRIO ? Quando começou a conceber ?Deserto?, thriller sobre imigração ilegal vencedor do Grand Coral de melhor filme do 38º Festival de Havana, no último dia 16, o diretor e roteirista Jonás Cuarón o imaginou como um exercício de gênero, que celebrava os filmes de ação e suspense americanos dos anos 1970. Entre o primeiro esboço do roteiro, coescrito com Mateo Garcia há mais de seis anos, e a realização, o tema ganhou relevância mundial e ainda virou pauta polêmica da campanha do presidente eleito dos EUA, Donald Trump. Logo, o potencial de significados do longa-metragem (ainda sem data de estreia no Brasil) protagonizado pelo mexicano Gael García Bernal e pelo americano Jeffrey Dean Morgan acabou se ampliando.

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? Minha intenção primeira sempre foi trabalhar com a forma e, ao mesmo tempo, tocar em um assunto controverso. O thriller funciona como uma armadilha para apresentar questões importantes ao público ? explicou, durante o Festival de Marrakech, onde ?Deserto? disputou prêmios, no mês passado. ? O combate à migração está cada vez pior, não só nos Estados Unidos, mas na Europa e em outras partes do mundo também. Em momentos de crise, os imigrantes são bodes expiatórios fáceis, geram votos para políticos. O que me surpreende é que esses políticos repetem retóricas que nos levam a lugares perigosos.

Filho do consagrado cineasta Alfonso Cuarón, vencedor do Oscar de direção em 2014 com ?Gravidade?, o jovem diretor de 35 anos rodou ?Deserto? em locações da região da Baja California, no México. O filme descreve a busca por uma vida melhor que rapidamente se transforma em luta pela própria sobrevivência. A história é centrada na figura de Moisés (Bernal), mexicano que lidera um grupo de compatriotas desarmados por uma região pouco policiada da fronteira entre o México e os Estados Unidos, no deserto de Sonora. Eles só não contavam cair no campo de visão de Sam (Morgan), um sujeito que costuma patrulhar a região em busca de ilegais, armado com uma espingarda, uma caminhonete com tração nas quatro rodas e um cão pastor treinado para avançar em pescoços.

? A figura desses vigilantes solitários está se transformando em um fenômeno comum na fronteira americana. Há vários casos registrados, não tão violentos como o mostrado no filme, mas alguns deles perseguem e chegam a matar gente que tenta fazer a travessia. Em geral, esses patrulheiros têm motivações racistas ? contou Cuarón, que vive nos EUA há 15 anos . ? ?Deserto? se passa numa região muito específica, mas serve de metáfora para esse discurso de ódio e de medo que está contaminando pessoas no mundo inteiro, que temem essas massas sem rosto sem perceber que há uma razão para elas deixarem seus lares para trás.

O projeto envolveu pesquisas por parte do diretor e de Bernal, que trouxe para o filme seu interesse pessoal pela América Latina. O ator, estrela de ?Diários de motocicleta? (2004), de Walter Salles, no qual interpreta o jovem Che Guevara, acabaria virando um dos ?colaboradores mais próximos? da produção. A inexperiência com os filmes de gênero ? seu primeiro longa, o drama interracial ?Año uña? (2007), é uma produção modesta, quase caseira ? levou Jonás a mostrar o roteiro de ?Deserto? para o pai. Saiu com bons conselhos, e Alfonso com a inspiração para ?Gravidade?.

? Ele se interessou pelo conceito de ação ininterrupta e pensou em fazer algo parecido, mas em outro ambiente ? lembrou o diretor, que assina o roteiro de ?Gravidade? com o pai. ? São filmes que compartilham da mesma natureza, mas de escopo e ambições completamente diferentes. Papai e o (diretor de fotografia Emmanuel) Lubezki foram buscar as soluções técnicas para criar a realidade de ?Gravidade?. Em ?Deserto? a realidade estava ali, pronta. Tive que adaptar o roteiro ao que achamos na locação. Há outra diferença óbvia: ?Gravidade? é um filme de estúdio; eu não teria conseguido fazer ?Deserto? sem o apoio de Gael, por causa de seu tom político.

formas de reescrever um roteiro

Formado em Literatura Inglesa, Jonás se considera um autodidata em cinema. Diz que aprendeu muito sobre a profissão indo ao cinema, porque ?há tantos filmes magníficos que é fácil tentar replicá-los?, ou acompanhando o trabalho do pai. Quando surge alguma dúvida, recorre a ele ou ao seus companheiros de geração, como Amat Escalante (de ?Heli?, vencedor do prêmio de direção no Festival de Cannes de 2014) e Gerardo Naranjo (autor do thriller ?Miss bala?, de 2011, e de alguns episódios da série ?Narcos?). Jonás costuma dirigir e editar os filmes que escreve, porque acha ?importante participar de todo o processo?.

? Para mim, são funções parecidas. Dirigir e editar são formas de reescrever um roteiro ? afirmou o diretor, que comemorou as recentes conquistas do cinema mexicano, como o Oscar de melhor direção dado neste ano para Alejandro Iñárritu por ?O regresso?. ? Há coisas legais acontecendo no México, nós nos tornamos uma comunidade muito forte nos últimos anos. ?Deserto? teve um considerável feedback do Amat e do Gerardo, por exemplo. Esse sentimento de comunidade é importante em qualquer cinematografia. Vejo isso acontecendo em outros lugares do mundo. Quanto mais fortes forem as comunidades cinematográficas, melhores serão seus filmes.

*Especial para O GLOBO


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