Por que Bauman condenou as redes sociais e o Google antes de morrer?

Sociólogo polonês criticava o Facebook por "lucrar com a solidão das pessoas"; morte do escritor completará um ano em janeiro

No mês que vem, a Polônia lembrará o primeiro ano de morte do sociólogo Zygmunt Bauman, famoso pelo conceito de modernidade líquida, mas que possui uma vasta obra sobre as relações sociais, o Estado-nação, a desigualdade e o neoliberalismo. Nos últimos anos de sua vida, ainda produzindo, ele se debruçou sobre o fenômeno das redes sociais e os avanços da internet.

Suas entrevistas finais são uma coleção de percepções sobre o tema – que podem ser fontes de reflexões, mudanças de comportamento e diagnósticos da vida contemporânea. Elas ainda podem ser base para textos exigidos em concursos públicos e mesmo para a redação Enem.

Em 2016, ao jornal espanhol El País, por exemplo, Bauman notava um fenômeno que foi muito debatido nas eleições presidenciais brasileiras deste ano: a possibilidade que as pessoas encontraram de se fechar em suas próprias opiniões em seus perfis.

"A questão da identidade foi transformada de algo preestabelecido em uma tarefa: você tem que criar a sua própria comunidade. Mas não se cria uma comunidade, você tem uma ou não; o que as redes sociais podem gerar é um substituto. A diferença entre a comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede pertence a você. É possível adicionar e deletar amigos, e controlar as pessoas com quem você se relaciona. Isso faz com que os indivíduos se sintam um pouco melhor, porque a solidão é a grande ameaça nesses tempos individualistas", disse.

"Nas redes, é tão fácil adicionar e deletar amigos que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma interação razoável. Aí você tem que enfrentar as dificuldades, se envolver em um diálogo. As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o único que veem são os reflexos de suas próprias caras. As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha", completou.

Nesse contexto de instantaneidade e avaliando o acesso facilitado ao conhecimento por meio da internet, o sociólogo ponderou, em entrevista à Agência Brasil naquele mesmo ano, que a real efetividade de compreensão das informações a que se tem acesso por meio da grande rede mundial de computadores. Ao mesmo tempo em que ferramentas como o Google nos permitem um acesso infinito ao conhecimento, Bauman diz que isso o faz sentir "humilhado".

O autor teve uma rápida passagem pelo Rio de Janeiro em 2015, a convite do Educação 360, onde concedeu algumas entrevistas e participou de outros eventos.

"Quando eu coloco uma pergunta no Google sobre uma informação qualquer que seja, recebo dúzias de bilhões de respostas. Me paralisa. O que eu aprendi com o Google é que eu nunca saberei o que deveria saber. E isso não necessariamente significa que sou mais sábio do que era antes", explicou melhor em outra entrevista, ao canal Observatório de Imprensa, em 2015.

"Claro que tenho um acesso muito fácil à informação, eu não preciso ir à biblioteca procurar em dezenas de livros para encontrar aquela informação que estou procurando. Tudo está ao alcance dos meus dedos. Eu consigo fazer isso sem sair da minha cadeira. Isso significa que sou mais sábio? Não tenho certeza. Ao contrário, eu me sinto humilhado. Não só por não ser mais sábio do que eu sou, mas também pela impossibilidade de adquirir a sabedoria que nos permite realmente, autoritariamente, responsavelmente, responder a pergunta que está à sua frente", completou.

Poucos meses antes de morrer, Bauman também escreveu sobre o Facebook, em especial. Em um artigo publicado pouco antes de janeiro de 2017, ele dizia que "Mark Zuckerberg ganhou US$ 50 bilhões com sua empresa lucrando com nosso medo da solidão. Isso é o que Facebook é". Apesar de nomear sua crítica, ele se referia, na verdade, a todas as redes sociais.

O sociólogo enfatiza que a genialidade de Zuckerberg foi perceber como as pessoas temem ficar sozinhas. Nas redes sociais, a solidão parece não existir. "Há sempre alguém lá pronto para ler nossas preocupações e curtindo nossa vida com seus 'likes'", escreveu. As pessoas agora parecem muito felizes em ser parte de conversas totalmente triviais – tudo em nome de um "estar conectado". O problema disso, para Bauman, é que os dias estão sendo menos gastos em companhia das pessoas reais, e mais em frente às telas dos aparelhos.



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