A atuação no combate à pandemia do coronavírus já há mais de 1 ano tem impactado a condição psicológica dos profissionais de saúde. Estudo aponta que 9 a cada 10 médicos tiveram problemas de saúde mental no contexto da pandemia.

O levantamento foi publicado nessa sexta-feira (9) pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) em parceria com a Rede Humanidades covid-19, ligada à Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). A pesquisa consultou 1.829 profissionais de saúde no Brasil de 1º a 20 de março deste ano.

Os dados indicam que a saúde mental dos médicos foi levemente mais afetada negativamente pela pandemia (85,4%) do que a de profissionais de enfermagem (85,1%) e ACSs (agentes comunitários de saúde) e ACEs (agente de combate às endemias) (75,1%).

Por região, os relatos de impacto negativo na saúde psicológica mostram cenário mais crítico nas regiões Sul (89,8%), Centro-Oeste (85,3%) e Sudeste (83,8%), em comparação com o Nordeste (74,5%) e o Norte (73,3%).

Somente 19,1% dos(as) respondentes disseram contar com algum apoio para cuidar da saúde mental neste momento. Entre os médicos, o percentual foi mais alto (28,8%), seguidos pelos profissionais de enfermagem (22,5%) e ACSs e ACEs (12,9%).

Entre os que indicaram receber apoio para cuidar da saúde mental, 61% indicaram receber apoio de psicólogos e 10,6% citaram o apoio de psiquiatras. O recebimento de apoio de amigos e familiares foi citado por 10% e o de religião ou espiritualidade, por 3,7%.

PERCEPÇÃO SOBRE O APOIO DE GOVERNOS

A pesquisa também abordou a percepção dos profissionais da saúde pública quanto à qualidade da ação das 3 esferas de governo na proteção dos trabalhadores.

As respostas indicaram que a percepção positiva sobre governos municipais (54%) é superior à dos profissionais de saúde quanto ao apoio de governos estaduais (50,4%) e do governo federal (24,8%).

De acordo com o estudo, “a descoordenação federativa e as dificuldades impostas pelo governo federal na condução da crise foram indicadas nos relatos dos profissionais como agravantes para as sensações de medo, insegurança e despreparo”.

USO DE TRATAMENTOS SEM EFICÁCIA COMPROVADA

O estudo aponta que 1 em cada 3 profissionais de saúde (34,4%) diz acreditar que se um paciente diagnosticado com covid-19 solicita um tratamento que não é consensual na ciência, mas muito falado na internet, é preciso acatar a escolha, mesmo que não haja a comprovação da eficácia em pacientes.

Um percentual parecido (33,7%) afirma que medicamentos desenvolvidos para outras doenças devem ser utilizados mesmo sem certeza de eficácia, pois se deve “fazer tudo o que é possível pelo usuário”.

Os agentes comunitários são os que mais defendem o uso de tratamentos que não são cientificamente consensuais (40,2%), seguidos pelos profissionais de enfermagem, com 34,3%, enquanto 22,2% dos médicos defendem essa posição.

A integra do estudo pode ser lida aqui.

Matéria de Paulo Motoryn publicada no Poder360.