Cascavel – A entrada de animais de países vizinhos é muito comum em fronteira seca. No Paraná, o único país com fronteira seca é a Argentina, já que, com o Paraguai, há barreira natural (rios) que impede esse ingresso. Na região sudoeste do Estado, onde está essa fronteira, a entrada clandestina de bovinos da Argentina para o território paranaense tem causado preocupação das autoridades e por várias razões. Uma delas é que a Argentina ainda depende da vacinação contra a febre aftosa, o que pode pôr em risco o status sanitário do Paraná, reconhecido internacionalmente como área livre da doença sem vacinação. Mas, além disso, a entrada de animais de origem desconhecida pode trazer outras doenças tão ou mais severas e comprometer todo o rebanho estadual.

A Adapar (Agência de Defesa Agropecuária do Paraná) tem acompanhado o caso com ainda mais atenção. Isso porque a crise econômica argentina faz com que aumente essa importação ilegal, estimulada pela gritante diferença de preços. “Na Argentina, quando há essa diferença de preços, é natural que aconteça essa imigração de animais. Como a Argentina está com problemas econômicos significativos, além da proibição da exportação de carne bovina, houve incremento da entrada ilegal da Argentina em todos os estados”, explica Rafael Gonçalves Dias, gerente de Saúde Animal da Adapar.

Para se ter uma ideia, hoje, o produto argentino custa um terço do brasileiro, o que aumenta os olhos dos contrabandistas. “Em contrapartida, aumentamos nossa fiscalização para coibir esse ingresso”, garante Rafael.

 

Investigação

A Adapar tem intensificado a fiscalização com apoio das polícias estaduais e federais, além de todo um serviço de investigação. “Já tivemos mais de sete interdições, com sacrifícios de mais de 100 animais que entraram ilegalmente no Paraná, sem origem conhecida, e agora estamos num trabalho de intensificar mais essa fiscalização na fronteira, considerando o risco que isso traz ao Estado sem saber a origem e as condições dos animais. Não é apenas a questão da febre aftosa, mas tem outras doenças que podem vir com esse ingresso ilegal”, explica.

As ações de combate vão desde o ingresso dos animais na fronteira, até operações no trânsito em todo o Estado e no receptador, que é quem incorpora esses animais no rebanho.

Segundo o gerente, os importadores são de várias regiões do Estado e para diferentes fins. Alguns compram bezerro e o incorporam no rebanho, enquanto outros compram animais prontos para o abate. Só que, independente da faixa etária, os riscos são iguais. “O destino dos animais é bastante variável. Pelas investigações, são vários locais diferentes que compram. Como temos rastreabilidade do rebanho de muitos anos, o produtor que aparece com animais a mais, é suspeito”. E complementa: “Temos feito várias operações nas propriedades com sucesso”.

O aumento do ingresso ilegal pela fronteira com a Argentina levou a Adapar a desenvolver um trabalho conjunto com outras secretarias de Estado. Segundo Rafael, nessa sexta (20) conversou sobre o assunto com a Secretaria de Segurança do Paraná, que vai aumentar a equipe nos postos de fiscalização.

 

Denúncias

Rafael não detalha como ocorre o trabalho de inteligência da Adapar, mas assegura que vai muito além do cadastro anual a que os produtores são obrigados de fazer. Além disso, há o estímulo para que o produtor denuncie sempre que suspeitar ou souber da irregularidade, anonimamente.

Quem for flagrado com animal de origem clandestina tem bastante dor de cabeça: perde o animal, que é sacrificado sem direito a indenização nem aproveitamento da carcaça; o caso é encaminhado para a Polícia Federal, que abre inquérito, e ainda responde um auto de infração que pode acarretar em multa de R$ 10 mil até R$ 100 mil.

“Essa condição de área livre sem vacinação impôs um controle de trânsito rigoroso do que entra e sai, então qualquer irregularidade pode pôr em risco a sanidade [animal], coloca em risco toda a economia do Estado, o rebanho dos produtores que atuam corretamente. Não pode haver conivência com esses contrabandistas”, ressalta o gerente, que conclui: “Lutamos para melhorar o status sanitário para abrir divisas, abrir mercados que pagam melhor, gerar mais renda no campo, e isso não pode ser colocado em risco para que meia dúzia de contrabandistas tenham mais retorno financeiro que os outros”.