Foto: Wakil Kohsar/AFP

Nova York – O Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) pediu o estabelecimento, por meio de negociações, de um novo governo no Afeganistão que seja “unido, inclusivo e representativo, inclusive com a participação plena, igualitária e significativa das mulheres”.

O órgão de 15 membros, que se reuniu para debater sobre o Afeganistão nessa segunda-feira, também pediu o fim imediato das hostilidades e abusos dos direitos humanos e para que todas as partes permitam o acesso humanitário imediato, seguro e desimpedido.

No último fim de semana, o Talibã declarou vitória na luta contra o governo afegão. O presidente Ashraf Ghani deixou o Afeganistão e sua administração perdeu, em termos efetivos, o controle do país.

As forças do Talibã chegaram à capital Cabul após terem tomado controle de 31 das 34 capitais das províncias do país até domingo. A mídia local afirma que o Talibã tomou o palácio presidencial e os escritórios governamentais no centro de Cabul.

O líder número dois do Talibã, Mullah Abdul Ghani Baradar, divulgou um vídeo no qual declara vitória sobre o governo.

O presidente Ghani, que deixou o país, afirmou no Facebook que pensou que seria melhor partir para evitar derramamento de sangue. Ele também afirmou que o Talibã havia conquistado a vitória.

A NHK apurou que Cabul se encontra em um estado anárquico, quase sem forças de segurança ou agentes policiais na capital.

Em tentativa de deixar o país, muitas pessoas foram ao aeroporto internacional. Missões diplomáticas dos Estados Unidos e de outros países ocidentais fazem arranjos para repatriar seus representantes. No domingo (15), o governo americano divulgou uma declaração conjunta com mais de 60 países, incluindo o Japão e o Reino Unido.

O documento pede que afegãos e cidadãos estrangeiros tenham permissão de partir do país de forma segura: “Os que ocupam posições de poder e autoridade em todo o Afeganistão têm a responsabilidade – e a obrigação – de arcar com as consequências acerca da proteção da vida humana e de propriedade, bem como sobre a imediata retomada da segurança e da ordem civil”.

E acrescenta: “O povo afegão merece uma vida com proteção, segurança e dignidade”. A declaração insta o futuro governo a garantir os direitos humanos das mulheres.

O Talibã informou à agência Associated Press que o grupo tem realizado conversas com outras forças para formar um governo no Afeganistão.

Talebã proíbe vacinação contra covid-19 e mulheres de estudar

O Taleban ordenou a paralisação da vacinação contra a covid-19 em pelo menos uma região do Afeganistão, de acordo com fontes médicas ouvidas pela imprensa local.

Em entrevista ao site Shamshad News, o diretor de Saúde Pública da província de Pakita, Walayat Khan Ahmadzai, afirmou que o grupo insurgente baniu a vacinação no Hospital Regional, que está sem aplicar os imunizantes há três dias.

Ahmadzai ainda afirmou que o Taleban alertou as equipes de distribuição dos imunizantes para não entregarem as doses às unidades de saúde. Quem compareceu ao hospital, ainda segundo o diretor, foi informado que a aplicação foi proibida.

A volta do Taleban ao poder no Afeganistão já alterou o modo de vida do povo afegão, especialmente das mulheres, que sentem com mais intensidade a realidade sombria que muitas delas pouco se lembram ou nem chegaram a conhecer.

Quando o grupo fundamentalista governou o país por cinco anos, entre 1996 e 2001, ficou proibida a educação de meninas e o trabalho feminino. Para sair de casa ou viajar, elas precisavam ser acompanhadas por um parente do sexo masculino, e aquelas que eram acusadas de adultério eram apedrejadas.

Em várias escolas, os professores já se despediram das estudantes mulheres, proibidas novamente de estudarem.

Relatos de pessoas que chegaram a Cabul antes do fim de semana confirmam que, mesmo antes de derrubar o governo, o Taleban começou a aterrorizar mulheres e meninas com ameaças de casamentos forçados, sequestro de mulheres e violência física em territórios já conquistados. Na semana passada, famílias da província de Takhar, que se deslocaram para Cabul em razão do avanço dos rebeldes, relataram que meninas que voltavam para casa em um riquixá motorizado foram detidas e chicoteadas por usarem “sandálias reveladoras”.

Macron anuncia plano para receber imigrantes do Afeganistão

O presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou nessa segunda-feira (16) uma iniciativa europeia para lidar com os fluxos de imigrantes do Afeganistão que devem ser desencadeados após o Taleban tomar o país.

Num discurso na televisão, Macron alertou que a desestabilização do Afeganistão pode gerar fluxos migratórios irregulares e afirmou que, embora a França continue a proteger “os mais ameaçados”, a Europa sozinha não pode suportar as consequências da situação real.

“Será lançada uma iniciativa para construir, sem esperar mais, uma resposta robusta, coordenada e unida”, afirmou Macron em seu discurso. O presidente disse que já conversou sobre o plano com a chanceler alemã, Angela Merkel.

Macron prometeu “luta contra os fluxos irregulares, solidariedade no esforço e harmonização dos critérios de proteção e a cooperação com os países de trânsito e de acolhimento”, o que poderia incluir acordos com Paquistão, Turquia e Irã, por exemplo.

O presidente francês afirmou que, neste momento, a urgência absoluta é colocar em segurança os franceses que ainda estão no Afeganistão, assim como os afegãos que trabalharam para a França.