Recém-eleito presidente da AMC (Associação Médica de Cascavel), com mandato que vai até 2023, o médico José de Jesus Viegas fala sobre o momento em que a medicina é desafiada diante de um coronavírus que parou o mundo.

Aos 80 anos, Doutor Jesus, como é conhecido, esbanja disposição, tanto que visitou a redação do Jornal O Paraná após um plantão intenso, e aproveitou o intervalo de uma cesárea (o bebê nasceu antes, de parto normal) para gravar a entrevista. Detalhe: já passa da marca de 13 mil bebês que trouxe ao mundo.

O médico falou sobre sua nova função na associação, sobre a carreira e a realidade do dia a dia dos profissionais em tempos de pandemia. E revela: “Não estávamos preparados e ainda não estamos”.

Com o intensivista Cristiano Mroginski como vice, Jesus sucede o médico Jorge Luiz dos Santos. A transmissão de posse ocorreu na noite de sexta-feira (16).

 

“Muito dinheiro foi destinado a hospitais de campanha, leitos e UTIs de emergência, mas o dia a dia dos hospitais continua fraco e carente”

 

O Paraná – Aos 80 anos de idade, o senhor possui uma rotina de trabalho movimentada, com plantões médicos, e agora assume um novo desafio, de comandar a Associação Médica de Cascavel. De onde vêm tanta disposição e energia?

José de Jesus Viegas – Isso, para mim, é uma alegria, um prazer… Não reclamo de ter que acordar para ir trabalhar. Agradeço a Deus por ter saúde e poder contribuir mais um pouco.

 

O Paraná – O que espera da nova função?

Jesus – Sempre estive muito presente na Associação, integrava a diretoria anterior e sempre participei das atividades realizadas, não das esportivas, porque parei de jogar futebol há muitos anos, mas das atividades sociais, culturais e cientificas… Espero que a AMC se torne cada vez mais atuante e unida, estreitando os laços entre comunidade médica e sociedade.

 

O Paraná – Neste ano, o mundo se deparou com uma situação desconhecida e que desafiou vários setores, mas uma das categorias mais exigidas foi a médica. O senhor acredita que a medicina será outra após a pandemia?

Jesus – Acredito que sim. Existe atualmente uma participação e uma interação maior das pessoas com a classe médica. Vários cientistas, bioquímicos, farmacêuticos e biólogos estão investigando, pesquisando, procurando contribuir com a medicina especialmente com relação às vacinas. Li, inclusive hoje, no Jornal O Paraná, a informação de que existem mais de 200 vacinas sendo pesquisadas. Acredito que até o fim deste ano já teremos algum medicamento e, independente de qual país seja, com certeza será eficiente e de qualidade.

 

“Grande parte dos médicos que trabalham na linha de frente em Cascavel contraiu covid-19”

 

O Paraná – A pandemia demonstrou o quanto ainda somos vulneráveis à falta de estrutura, até mesmo com a falta de materiais básicos, como máscara. Vocês, médicos, tinham consciência dessa precariedade?

Jesus – Não estávamos e ainda não estamos preparados para enfrentar isso [a pandemia]. Muito dinheiro foi destinado a hospitais de campanha, leitos e UTIs de emergência, mas o dia a dia dos hospitais continua fraco e carente. Não podemos ter como comparação Cascavel. Em termos de atendimento médico, é muito bom, tanto na saúde pública, nos hospitais particulares e na formação de profissionais, com as faculdades de Medicina. Incluo os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, que são bem atendidos. Já o interior de outros estados, como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas, Região Nordeste, está abandonado com dificuldades de atendimentos, medicamentos e respiradores.

 

O Paraná – A pandemia fez com que, ao mesmo tempo em que os profissionais da saúde eram tratados como heróis, foram questionados e sofreram cobranças. Diante do desgaste vivido em alguns países, cogitou-se que muitos profissionais desistiriam da profissão. E por aqui?

Jesus – A situação abala o trabalho dos profissionais. Algumas autoridades gestoras, da parte econômica, administrativa, jurídica, tomaram uma série de medidas sem consultar os médicos, o que considero uma falha. A classe médica não foi muito ouvida. [Os médicos] Tiveram que se submeter a regras e critérios os quais nem todos foram acertados com relação a medicamentos e aparelhos. Os que estavam na linha de frente sofreram uma carga muito pesada, com risco de contaminação, de desenvolver comorbidades e ter de se afastar de outros familiares. Grande parte dos médicos que trabalham na linha de frente em Cascavel contraiu covid-19.

 

O Paraná – Cascavel é um polo de medicina, referência a todo o País há bastante tempo. Como o senhor vê essa estrutura daqui a alguns anos?

Jesus – O futuro de Cascavel em termos de medicina é hoje, já está presente aqui. Não saio de Cascavel para realizar nenhum procedimento, nenhuma consulta em nenhum lugar do Brasil. Os melhores profissionais, mais capacitados e as melhores técnicas estão disponíveis aqui, e em várias especialidades, como neuro, cardiologia, ortopedia, ginecologia obstetrícia, que é a minha área. Temos uma previsão positiva em termos de robótica, que vai facilitar muito, porque o médico e o professor vão conseguir orientar colegas e alunos a distância. Temos tratamento de câncer especializado e técnicas que são lançadas nos Estados Unidos, em Israel e são aplicadas em Cascavel.

 

O Paraná – Sairemos melhores desta pandemia? O que vamos aprender com isso?

Jesus – Sairemos melhores com relação a relacionamento, espiritualidade… Não sou apenas um corpo. Tem algo que me orienta, que me permite continuar. Muita gente entende isso hoje e vê que é uma evolução. Esses momentos de reflexão e de oração fazem com que mude a medicina e mude o comportamento das pessoas, que começam se aceitar e a aceitar melhor o outro, não só porque está convivendo mais, porém está observando e valorizando mais.

Assista a entrevista: