Ministério da Saúde confirma: a água estava contaminada

Sem a presença da Sanepar, Comissão divulga relatório que aponta contaminação da água durante o surto de diarreia

A Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara de Vereadores apresentou nessa quinta-feira (1º) relatório com resultado da análise feita pelo Ministério da Saúde sobre o surto de diarreia em Cascavel de dezembro do ano passado a maio deste ano. O relatório aponta a presença de Cryptosporidium hominis, protozoário humano encontrado em água bruta no ponto de captação do Rio Saltinho, corroborando a hipótese de a fonte de transmissão ser a rede de abastecimento de água da Sanepar.

No dia 7 de março, o Jornal HojeNews publicou reportagem que revelava que no dia anterior uma reunião na prefeitura já tratava da contaminação do Rio Saltinho. Contudo, mais uma vez a informação foi negada tanto pela Sanepar quanto pela prefeitura. Ou seja, se tivessem tomado as providências naquela ocasião, centenas de pessoas não teriam ficado doentes.

Agora, a recomendação do Ministério da Saúde é suspender a captação de água do Rio Saltinho para abastecer a população. “Até que esse rio tenha um tratamento e fique em condições, não se pega água dele para que não venha trazer esse excesso de protozoários para a estação de tratamento e depois para as residências. Esse rio deve ser interditado para resolver essas questões”, sugere o vereador Celso Dal Molin.

Em resposta aos questionamentos do Ministério da Saúde, a Sanepar destacou que desde janeiro já realizava o monitoramento de protozoários em seu manancial no Rio Saltinho.

Para o vereador Celso Dal Molin, a empresa deveria ter assumido o problema e orientado a população quanto aos cuidados necessários no consumo da água naquela ocasião: “Não estamos condenando a Sanepar, que tem uma estrutura boa e eficaz, mas faltam detalhes, algumas questões básicas quando se fala em protozoários, por isso a participação da empresa nessa reunião era importante”, disse, referindo-se ao encontro de ontem, quando nenhum representante da Sanepar esteve presente.

Números que assustam

Conforme a Secretaria de Saúde, nos cinco primeiros meses deste ano o número de pessoas que procuraram as UPAs (Unidades de Pronto-Atendimento) com os sintomas de diarreia chegou a 12.233, praticamente o total atendido durante todo o ano de 2018. Os atendimentos nas UPAs Tancredo Neves, Veneza e Brasília pularam de 25 por semana para uma média de 555 durante o período, em alguns períodos ultrapassando mil casos.

Contudo, esses números são muito maiores porque não foram registrados os casos atendidos na rede particular de saúde.

Confira a íntegra do relatório do Ministério da Saúde

Demora na comunicação e nas ações

Segundo a diretora de Vigilância em Saúde da Secretaria de Saúde de Cascavel, Beatriz Tambosi, no início de janeiro a Sanepar já tinha conhecimento da presença do protozoário na captação de água e a demora em comunicar as autoridades pode ter colaborado com o surto de diarreia no Município: “Se a Secretaria de Saúde tivesse tido conhecimento do problema antes, algumas ações para evitar o surto poderiam ter sido desencadeadas antes também”.

Além disso, no primeiro fim de semana de março chegou a Cascavel uma equipe do Ministério da Saúde para acompanhar a situação. Em reunião com autoridades da saúde local no dia 1º, sexta-feira véspera do feriado de Carnaval, os técnicos sugeriram que fosse dado alerta para a população ferver a água antes de consumir. Contudo, esse alerta só chegou à população mais de uma semana depois, no dia 11 de março. E, mesmo assim, sempre que se manifestava, a Sanepar insistia que não havia necessidade de ferver a água e que atestava sua qualidade.

Confira a íntegra do relatório do Ministério da Saúde

Comissão quer que Sanepar banque o custo com o surto

 

Segundo o secretário de Saúde, Thiago Stefanelo, o impacto financeiro com os tratamentos durante o surto de diarreia que atingiu Cascavel no início do ano não foi pequeno. O custo, considerando horas extras e insumos para os atendimentos, chegou a cerca de R$ 1,644 milhão a mais do que a média mensal.

O vereador Celso Dal Molin afirmou que vai notificar a empresa para que ela faça ressarcimento desse valor aos cofres públicos municipais, se não em espécie, mas através de parcerias e investimentos na saúde pública de Cascavel. Caso não haja um posicionamento da Sanepar com relação a isso, ele promete, através da Comissão de Direitos do Consumidor, tomar outras providências.

Foi cogitada também a possibilidade de a Sanepar ser multada pela Secretaria de Meio Ambiente devido à contaminação da água tratada. Essa questão ainda será avaliada, segundo o secretário de Meio Ambiente, Wagner Yonegura.

Blindagem dos mananciais

O secretário de Meio Ambiente, Wagner Yonegura, falou do projeto de blindagem dos mananciais que abastecem Cascavel: “Esse projeto está em fase final de elaboração. Ele contempla a blindagem de todos os mananciais e nascentes até a captação do Rio Cascavel. Num segundo momento até o Rio São José. Todas as fontes já estão identificadas. Nós vamos blindar para proteger e evitar a contaminação e fazer a recuperação das matas ciliares no entorno de cada nascente desde a cidade até o local da captação num total de 9 quilômetros. O projeto tem início pelo Rio Cascavel e pelo São José e posteriormente atingirá todos os rios da região”.

Confira a íntegra do relatório do Ministério da Saúde

Fiscalização contínua

Para a diretora de Vigilância Sanitária da Prefeitura de Cascavel, Maria Fernanda, a ação de fiscalização e análise da qualidade da água deve ser contínua. “Nós temos que pensar não só na questão da água que chega às nossas casas, mas nos mananciais. Por mais que se filtre ou se ferva, se a água dos nossos mananciais estiver contaminada, vai refletir na água tratada. Precisamos criar um conselho para gerenciar de modo contínuo e permanente todo o manancial de água aqui, em Cascavel”.

Para a médica de vigilância e saúde Lilimar Mori, da 10ª Regional, “o Ministério da Saúde já esteve aqui, ajudou na investigação e o relatório é esse que está sendo apresentado para a população de que há um problema na água, na água de consumo. Não podemos ter problemas na água. Temos que fazer uma parceria forte com a Sanepar para resolver esses problemas”.

Confira a íntegra do relatório do Ministério da Saúde

Sanepar nega contaminação e faz ameaças

O gerente regional da Sanepar, Renato Mayer Bueno, foi convidado para participar da reunião ontem, mas disse que tinha um compromisso fora da cidade e não enviou representante. Mais tarde, a empresa divulgou nota para a imprensa, na qual volta a negar qualquer contaminação e responsabilidade pelo surto de diarreia e ainda faz ameaças devido à divulgação do laudo do Ministério da Saúde. Confira a íntegra:

“A Sanepar reitera e garante a qualidade da água distribuída para a população de Cascavel. As análises realizadas pela Companhia, pelo laboratório contratado pela Sanepar e pelo Instituto Adolpho Lutz, atestam essa qualidade e confirmam que não há presença de protozoários nocivos à saúde humana na água entregue para a população.

Assim que detectou a presença de protozoários no rio Saltinho, em janeiro de 2019, a Sanepar fez a imediata comunicação do resultado à Secretaria Estadual de Saúde (SESA), através do SISÁGUA, conforme relatórios da própria SESA. E, imediatamente, ampliou as medidas de prevenção no sistema de abastecimento, visando garantir a segurança e a qualidade no fornecimento da água.

A Secretaria Municipal da Saúde de Cascavel em nota, distribuída no dia 27 de março, informou que nas amostras coletadas da água tratada e que é distribuída pela Sanepar não foi detectada a presença de nenhum protozoário, o que corrobora os teste de laboratórios.

A Sanepar garante que toda a água distribuída para a população de Cascavel e em todo o Estado do Paraná segue rigorosamente todos os padrões de potabilidade exigidos pelo Ministério da Saúde.

Por fim, a Sanepar comunica que tomará medidas judiciais para que informações distorcidas e inverídicas sejam evitadas”.

 Reportagem: Celso Romankiv

Veja o vídeo feito sobre a apresentação do relatório do surto na Câmara de Vereadores de Cascavel:

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