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NITERÓI ? Quando entrar no avião, terça-feira, atravessar a fronteira e sair do país pela primeira vez, rumo a Lima, no Peru, Felipe Ribeiro dará mais um passo em direção à profissionalização como atleta do badminton. O Campeonato Pan-americano Júnior, que começa sexta-feira, é a sua segunda competição internacional. A primeira foi o sul-americano, na categoria sub-15, disputado em Santo André, no interior de São Paulo, em 2014. O garoto, hoje com 16 anos e competindo na sub-17, ficou com a medalha de bronze. Felipe faz parte da equipe #ÉoBad, criada pelo ex-jogador Gabriel Alcântara, no Cubango, logo após a tragédia do Morro do Bumba, em 2010. Na equipe estão meninos e meninas das categorias sub-11 até sub-19. Alguns, como Maria Elizabeth Ferreira, Welton Menezes, Raphael Pires e Victor Pimentel, seguem os passos do colega vitorioso e acumulam conquistas em campeonatos nacionais e internacionais.

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? O Gabriel começou o projeto para amenizar a dor de quem perdeu casa, família, amigos. Ele chegou com a raquete e fiquei curioso. Nunca tinha visto, nem na televisão ? conta Ribeiro, que começou a jogar aos 10 anos.

Legado de uma tragédia

O jovem não era morador do Bumba, mas vivia bem próximo. Tanto que seu condomínio foi interditado devido aos riscos de desabamento. Bem no início do projeto as aulas eram dadas na rua. Depois, os treinamentos passaram para as quadras do Centro Pró-Cubango e de algumas escolas da região, onde Alcântara dá aulas de Educação Física.

? Montávamos a rede num local em que não passava carro, porque, se não, teria que desmontar a toda hora. Riscávamos uma linha no asfalto para montar a quadra ? conta Ribeiro.

Nascido e criado no bairro, Alcântara explica que começou a treinar os jovens porque via de perto as mazelas pelas quais eles passavam, principalmente depois da tragédia:

? Eles têm origem humilde e têm poucas oportunidades. Quando cheguei com uma raquete e uma peteca, chamei a atenção. Como a iniciação no jogo é cooperativa, um tem que mandar a peteca para o outro para aprender a jogar, estimula o companheirismo. Além disso, acho uma modalidade muito lúdica. Em cinco minutos você já está brincando, dando gargalhadas, jogando com uma outra pessoa.

Alcântara ressalta que, quando o profissionalismo é a meta, o badminton se requer dedicação deve total.

? No alto rendimento, os detalhes são inúmeros: trocas de empunhaduras, deslocamentos corporais e de batidas. Exige muita técnica. Principalmente porque é o esporte de raquete mais rápido do mundo: a peteca supera os 430 km/h. O atleta tem que estar preparado para as jogadas, muito bem treinado ? explica o técnico.

Obstinado, Ribeiro sabe bem as barreiras que deve derrubar e a dedicação e o foco que deve manter no badminton para alcançar sua meta: a seleção.

? Hoje, tenho outra visão do esporte. Aprendi a ser atleta não só dentro da quadra. Cuido da alimentação e trato bem as pessoas. Isso tudo me fez crescer. O objetivo é ficar sempre no topo do ranking. Disputar sul-americanos, pan-americanos até chegar ao adulto ? diz.

Os recursos do projeto são poucos. Ribeiro, especificamente, tem o apoio do instituto filantrópico Trevo, que o treinador diz ser essencial. A ajuda auxilia também outros atletas, mas, mesmo assim, os jovens treinam em espaços improvisados, e, muitas vezes, a equipe assume despesas de material e de viagens. Eles jogam, por exemplo, em pisos diferentes dos oficiais, que são tapetes.

? Treinamos em taco e cimento. Às vezes, escorregamos, não conseguimos fazer o movimento. Mas não ligamos para isso. A ideia é superar ? diz Ribeiro.