Hellinger nos chama a atenção a um ponto ao qual poderíamos designar “processamento do vínculo”. Trata-se da necessidade sentida pela alma da pessoa de o vínculo com o parceiro anterior ter de ser plenamente respeitado. “Respeitar o vínculo anterior” significa que os novos parceiros precisam reconhecer que estão “subordinados” aos antigos e têm uma espécie de “dívida” em relação a eles. De qual “dívida” se trata? A dívida que nasce do fato de os parceiros deverem sua parceria atual ao fracasso do relacionamento anterior e, portanto, a tem à custa dos ex-parceiros.

Hellinger é sem meias-palavras quando trata disso: “Ambos os parceiros vivem a segunda parceria à sombra da primeira, mesmo que o antigo cônjuge já tenha falecido. Por essa razão, o segundo amor só logra êxito quando o vínculo com o primeiro é reconhecido e valorizado, quando os novos parceiros compreendem que sucedem aos anteriores e ficam em débito para com eles” (Hellinger, B. Simetria oculta do amor, p.58).

Quando um casal se separa e estabelece um novo relacionamento, precisa estar consciente da necessidade de ter de honrar o cônjuge anterior de seu novo parceiro. Honrar significa que deve curvar-se interiormente a ele e agradecer-lhe por haver liberado a esposa ou o marido para que pudesse firmar um novo relacionamento.

O que acontece em geral quando um vínculo é rompido e um novo vínculo é firmado e, em lugar de reconhecer e honrar os ex-parceiros, guarda-se raiva e rancor em relação a eles? A experiência das Constelações Familiares mostra que esta é a “receita” perfeita para o fracasso do novo vínculo. No entanto, as consequências não se encerram ali. Elas muitas vezes recaem sobre os filhos, os quais acabam assumindo sobre si o peso do ex-parceiro não reconhecido.

Muitas vezes a raiva inexplicável que um filho sente é devida à identificação dele com um ex-parceiro não honrado pelos pais. Este, aliás, é um ponto ao qual o casal deveria ficar muito atento. Filhos que recebem suas vidas à custa não apenas de um, mas de vários ex-parceiros importantes de seus pais, têm uma vida muito mais difícil do que os demais. Em tal situação, o filho, para dar valor a todos, busca inconscientemente o equilíbrio entre ganhos e perdas, ao mesmo tempo em que corre o risco de se perder a si mesmo. Essa perda de si mesmo pode assumir diferentes formas: fracasso na vida profissional, dificuldades de manter um relacionamento, o desenvolvimento de diferentes doenças, tristeza profunda e depressão, entre tantos outros.

Assim, considerando a seriedade de ter de honrar os ex-parceiros, é importante que a pessoa faça o que podemos designar “encerramento de vínculos anteriores”. Trata-se de um movimento conduzido por uma pessoa experiente em Constelação Familiar no qual mostramos o quanto sentimos tudo aquilo que provocou sofrimento ao outro e reconhecemos e agradecemos o que de bom vivemos juntos. Depois liberamos essa pessoa a seguir na vida ao mesmo tempo em que liberamos a nós mesmos dela.

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JOSÉ LUIZ AMES E ROSANA MARCELINO são terapeutas sistêmicos e conduzem a Amparar.