Variedades

Cova da Moura, a favela "a la Brasil" de Lisboa

Bairro de africanos foi ameaçado de demolição pelo governo da capital portuguesa, mas hoje possui um dos roteiros turísticos da cidade

No exterior, favelas são geralmente associadas com o fenômeno brasileiro de bairros pobres nos subúrbios das grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, ou aos imensos bolsões de miséria da África do Sul. No entanto, em Portugal há uma favela semelhante e famosa: a Cova da Moura, em Lisboa que, nos últimos anos — da mesma forma que a Rocinha, no Rio –, se tornou uma atração turística.

Cerca de mil turistas por ano, incluindo acadêmicos, arquitetos e sociólogos, pagam cerca de €5 para percorrer as estreitas ruas do bairro na cidade vizinha de Amadora, localizada a 15 km do centro da capital portuguesa. Ali encontram muros com desenhos do pastor estadunidense Martin Luther King, do revolucionário argentino Che Guevara, do rapper Tupac, grafites com denúncias de violência racial e racismo.

"Moura" é, na verdade, o sobrenome da primeira família que ergueu uma casa no morro no início dos anos 1970. À época, o terreno já era considerado valioso pelo mercado imobiliário lisboeta — hoje, ele é avaliado em € 100 milhões. Com sete mil moradores, 50% são africanos. Recentemente, o governo português divulgou que 10% dos habitantes do bairro são analfabetos.

Apesar dos roteiros, os taxistas de Lisboa ainda se recusam a levar muitos turistas avulsos ao bairro, considerado um dos mais perigosos da Europa durante a noite. Inspirado nos circuitos lançados recentemente no Brasil, os visitantes chegam a Cova da Moura com dois objetivos: "Limpar a imagem local de perigo e criminalidade e dar uma ajuda econômica aos moradores locais", explicou Miguel Lourenço, diretor do projeto turístico Sabura, ao jornal português Público.

"Não é Montmartre, em Paris, ou o Bairro Gótico, em Barcelona, mas nosso patrimônio cultural pode atrair visitantes interessados na cultura de Cabo Verde, sua comida, sua música, seu artesanato", completou ele, se referindo ao fato de que um terço dos residentes do bairro sejam cabo-verdianos radicados em Portugal. A expectativa dele é que, com mais passagens aéreas para a Europa que fazem escalas longas em Lisboa (uma estratégia da companhia portuguesa TAP), o número de turistas em Cova da Moura aumente nos próximos anos.

O guia do tour do Sabura, afirmou à mesma publicação que a Cova da Moura impressiona os visitantes estrangeiros pelo senso comunitário: "É um bairro com sete mil pessoas, mas todo mundo conhece todo mundo".

Os primeiros moradores do bairro, que fica acima de um morro de onde é possível ver Lisboa quase inteira, foram portugueses regressos das colônias na África. Mas depois da independência de Cabo Verde, em 1975, eles passaram a chegar cada vez mais no país, construindo suas casas ilegalmente na única região em que encontravam seus conterrâneos: Cova da Moura.

Além deles, migrantes das antigas colônias de Angola e Guiné Bissau também viram em Lisboa uma chance de encontrar melhores opções de emprego, ainda que com salários baixos. Há 40 anos, com a grave crise econômica que o país europeu passou, Cova da Moura foi tragada pelo desemprego: os que tinham algum trabalho eram mal remunerados ou entravam no mercado informal. "Muitos jovens começaram a vender drogas para colocar comida na mesa de suas famílias", revelou Spinola.

Outros, que chegaram a conseguir qualificações em Portugal, voltaram para Cabo Verde, ainda que o custo de vida no país africano seja duas vezes mais alto do que em Portugal.

Recentemente, o jornal britânico The Guardian publicou uma reportagem sobre a associação Moinho da Juventude, que trabalha em Cova da Moura há alguns anos procurando melhorar as condições de vida locais, incluindo lutas com as autoridades de Lisboa por serviços de esgoto e água corrente nas casas do bairro.

O idealizador do projeto é o psicólogo belga Godelieve Meersschaert que, junto com seu marido, Eduardo Peçanha, que nasceu na Ilha de Açores, se encantaram pelo bairro desde o primeiro dia que o conheceram, em 1982. "Estou aqui até hoje", conta. A última luta da associação é para evitar que a Cova da Moura seja completamente demolida pelas autoridades portuguesas, como chegou-se a aventar alguns anos atrás.

"A prefeitura queria colocar o bairro abaixo e oferecer a terra a empreendedores locais, já que é um bairro muito bem localizado, nos portões de entrada de Lisboa", contou. "Eles organizaram uma campanha de difamação na TV que conseguiu fazer com que as pessoas da cidade ficassem contra a gente", completou.

Foi quando surgiu a ideia de abrir Cova da Moura aos turistas: para mostrar um outro lado do bairro para os lisboetas e mesmo para os estrangeiros. Hoje, operações policiais acontecem com frequência durante a noite, mas a região é considerada segura para se visitar — acompanhado de um guia — depois do nascer do sol, e as gangues que atuam no local concordaram em receber os visitantes.

No ano passado, o mesmo jornal Público disponibilizou uma reportagem contando a história de um ex-traficante de Cova da Moura que se tornou guia turístico depois de ser preso. A reação dos turistas às denúncias que ouvem dos guias sobre violência policial e preconceito é geralmente de indignação, como conta o brasileiro Renan Floresta, que vive em Lisboa há dois anos e fez o tour. "Eu estava com um grupo de alemães que ficaram extremamente incomodados com o que estavam vendo e ouvindo", finaliza.