Para entender adequadamente este ponto, é preciso relembrar o que Hellinger diz sobre a dinâmica intrínseca ao casal: o matrimônio está orientado aos filhos. Para Hellinger isto não resulta de suas convicções religiosas e nem mesmo filosóficas, e sim se trata de algo próprio à natureza do todo ser vivo. Todo ser vivo tende a ser, jamais a deixar de ser, isto é, a extinguir-se. Com os seres humanos não é diferente.

Quando existe uma união na qual o casal não pode ter filhos, o casal fica impossibilitado de dar origem a um sistema novo. Um sistema novo começa unicamente com a vinda ao mundo do filho. Isso tem para Hellinger consequências determinantes sobre o vínculo e a sua continuidade. Durante um Seminário, ele fez o seguinte comentário sobre esta questão: “Quando um casal se encontra e ao cabo de um tempo resulta que um dos dois não pode ter filhos, não deve passar esta carga ao outro, por assim dizer. Quando um não pode ter filhos, mas o outro pode e quer tê-los, então aquele que não pode tê-los deve liberar o outro. Não é lícito sobrecarregar o outro com o próprio destino. Cada um deve carregar seu próprio destino e, assim, conserva sua dignidade” (Hellinger, B. Lograr el amor en la pareja, p. 168).

Nas relações de casal em que um dos parceiros não pode ter filhos o vínculo tende a ser fraco, explica Hellinger: “Quando há uma nova relação na qual um dos companheiros se esterilizou, não se produz um vínculo forte. Em um caso assim, de antemão se exclui algo muito essencial” (Hellinger, B. Lograr el amor en la pareja, p. 168). Esse “algo muito essencial” é a possibilidade de ter filhos. Em um relacionamento assim, quando acontece a separação, a dor sentida é também menor.

Para Hellinger, a pessoa estéril precisa encarar sua condição como destino e viver com as consequências disso. Quando a pessoa consegue viver dessa maneira há também uma dignidade nisso. Já vimos na passagem citada acima, que a pessoa que carrega esse destino (de não poder ter filhos) precisa liberar interiormente seu parceiro. No entanto, afirma Hellinger, “se, apesar disso, seu parceiro permanece na relação é um presente muito especial e que precisa ser reconhecido como tal. Uma decisão assim não pode ser exigida. Assim, quando, por exemplo, o marido diz à esposa: “é um presente especial você ficar comigo apesar de eu não poder engendrar um filho. O reconheço profundamente. Quero que você saiba que poderá contar comigo de uma maneira muito especial”. Isto é como uma compensação, com amor. Então podem permanecer juntos” (Hellinger, B. Lograr el amor en la pareja, p. 24).

Como podemos observar nas palavras finais desta citação, nas relações de casal em que um dos parceiros é estéril se desenvolve um desequilíbrio na troca entre o dar e o tomar, no qual a parte que é estéril recebe mais. Se não houver um equilíbrio, existe grande chance de o parceiro estéril abandonar a relação. Um modo de criar esta compensação é, no entendimento de Hellinger, que o companheiro estéril reconheça que o outro lhe concede um presente especial ao permanecer com ele apesar disso. “Esse reconhecimento amoroso é uma compensação ao casal. Assim conseguem ser felizes. No entanto, este agradecimento é humilde e, portanto, muito difícil” (Hellinger, B. Lograr el amor en la pareja, p. 251).


JOSÉ LUIZ AMES E ROSANA MARCELINO são terapeutas sistêmicos e conduzem a Amparar.

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