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Coluna Amparar: A vida é um processo de inúmeras mortes

02 de abril de 2022 às 07:20
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Nas postagens anteriores refletimos sobre como lidar com a morte em geral. Agora queremos refletir sobre a morte de alguém em particular: a morte do parceiro ou parceira. A experiência nos mostra que o impacto da morte sobre o parceiro que permanece em vida é tão grande a ponto de haver grande probabilidade de também ele morrer nos meses seguintes. Assim, vamos examinar a questão da morte na relação de casal como um processo que se dá em vida, mas também examinar o tema do luto após a despedida.

Hellinger nos leva a um percurso de pensamento no qual a morte pertence à própria vida do casal. Na visão de Hellinger, o relacionamento de casal é um contínuo exercício em direção à morte na medida em que a unidade profunda que une os parceiros no amor conhece um movimento paradoxal para o soltar-se em direção a uma unidade ainda maior. Esse movimento é motivado pelo sentimento de incompletude.

“Ao começarem um relacionamento, algumas pessoas pensam que ficarão para sempre estreitamente unidas. Mas o relacionamento é também um processo de morte. Cada uma de suas crises é experimentada como uma morte, como uma fase de nosso processo de morrer. Nesse processo, algo da intimidade se perde. Porém, num outro nível, o relacionamento ganha uma nova qualidade e fica diferente: mais relaxado, solto e amplo” (Hellinger, B. Ordens do amor, p. 35).

Assim, cada crise é um soltar-se um do outro e, uma vez superada a crise, a unidade cresce até o soltar definitivo em direção à unidade maior, definitiva, à qual, conforme vimos nas postagens anteriores, Hellinger designa de diferentes formas. Dessa maneira, a morte pode ser vista como um processo de vida que é tanto algo doloroso – por se constituir de sucessivas separações – quanto realizador – uma vez que conduz à plenitude.

Hellinger nos chama a atenção para o fato de que a vida é um processo vivido por inúmeras mortes. Essas “mortes” são constituídas pelas renúncias e perdas vividas como crises. Toda crise habilita o casal a exercitar-se na morte. “A cada renúncia e perda, o novo que penetra nos relacionamentos mostra-se mais modesto e mais sereno. Ao mesmo tempo, o amor torna-se mais estimulante para a alma que o amor dos recém-casados. Quando a união do casal volta para a Terra e se faz mais modesta, os parceiros se encaminham para a morte e a saúdam. Por isso, vemos tantas vezes expressões de completa serenidade no rosto de pessoas idosas bem-casadas, pois elas já não temem a perda nem a morte” (Hellinger, B. A simetria oculta do amor, p.67).

As crises que acontecem nos relacionamentos a dois são, portanto, partes desse processo do morrer. Há, porém, uma despedida definitiva que acontece quando um dos parceiros retorna à origem da vida. Essa perda é vivida como profunda dor pelo parceiro que permanece em vida. “A dor o ajuda a superar a separação quando ele se expõe a ela. […] Quem se abandona a essa dor tem a impressão de que é infinita. Entretanto, a experiência mostra que quando alguém se abandona totalmente a essa dor, vivencia que a separação será logo superada” (Hellinger, B. A fonte na precisa perguntar pelo caminho, p. 143).

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JOSÉ LUIZ AMES E ROSANA MARCELINO são terapeutas sistêmicos e conduzem a Amparar

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