A freirinha mineira abençoava a todos que passassem por ela, na calçada, e dizia, entre um sorriso e o sinal da cruz, que a fé não costumava falhar.

 

Diz a canção de Gilberto Gil que devemos andar com fé, pois ela não costuma falhar. Ganhei do Exército Brasileiro um verdadeiro presente de final de carreira: morar em Belo Horizonte por 1 ano. E lá me fui, com a ideia de que poderia voltar para Cascavel como uma pessoa melhor. Com emoção percorria diariamente, após o final do expediente no Posto Médico (clínica de saúde do Exército) da capital mineira, as ruas e montanhas da cidade. No final do século XIX, BH foi planejada e construída como uma pequena Paris, com jardins e prédios esplendorosos, para uma população que não deveria passar de 200 mil pessoas. Hoje, a área metropolitana possui mais de 4 milhões de habitantes, e o “belo horizonte” é cercado por cadeias de montanhas, entre elas a “Serra do Curral”, que tem esse nome porque ali eram criados cavalos para o imperador do Brasil.

Na antiga praça da estação de trens, hoje uma moderna estação de metrô, uma estátua belíssima representando um guerreiro com sua espada adverte: “Liberdade é o outro nome de Minas Gerais”.  Percorri, depois, o sul do estado e me senti como um viajante conhecendo um pouco da história de nosso país, com a sensação de que visitava “a raiz de nossa nacionalidade”. E penso verdadeiramente ter feito essa descoberta, não enterrada ali, nas minas de ouro, mas no coração do povo mineiro. Já sabia que os povos das montanhas eram sábios, pela visão ampla do horizonte e pelo reconhecimento da beleza da natureza – e isso pode se refletir no relacionamento interpessoal.

Mas foi na convivência diária que aprendi muito mais do que supunha possível ou imaginava. O mineiro gosta de conversar, tomar um cafezinho, confraternizar no boteco da esquina no final da tarde, e cedinho vai para casa.  Se a prosa for boa, continua no jantar em família, com o convidado sendo paparicado o tempo todo. E esse “aconchego” parece refletir a alma de nosso povo brasileiro. O folclorista e escritor Ariano Suassuna, que tive o prazer de conhecer em BH, disse que se seguirmos o rumo do Rio São Francisco (o grande rio da integração nacional), que nasce no norte de Minas e segue por vários estados do Nordeste, até desaguar no oceano, compreenderemos o que vai no coração de nossa gente, que é bondosa e trabalhadora.

E o Brasil parece se encontrar em Minas. Na calçada, todas as manhãs, cruzava por uma freirinha, entre o alojamento e o local de trabalho. Todos os dias ela me abençoava, com um sorriso e o sinal da cruz: “Deus te abençoe, meu filho.” Na minha última semana em Minas Gerais, não aguentei e segui a freirinha até a capela do colégio das irmãs, que ficava próximo. Ela tinha 1,50 e 92 anos. Não aparentava tanto.  Agradeci pelas bênçãos diárias e mostrei a santinha que carreguei todo o tempo no bolso, a Santa Rita de Cássia, presente de minha mãe. Ela beijou a santinha e me deu um rosário, que eu na primeira oportunidade tratei de entregar para minha mãe, hoje com 95 anos, e que mora no Rio Grande do Sul. A freirinha mineira se chamava Lúcia de Cássia e me disse que a fé não costumava falhar.

 

Dr. Márcio Couto – Médico Cardiologista

CRM-PR 14933. Membro da diretoria da AMC