Não é somente a expressão para tratar de apelidos pejorativos, humilhações e severas formas de violência psicológica, que mudou com o passar do tempo. Se hoje ouvimos falar tanto de Bullyng é porque tal prática provoca tamanha preocupação que merece discussões esclarecedoras.

Na região oeste do Paraná, um dos casos de quem diz ter sido vítima, ganhou repercussão nacional pelas trágicas consequências. Um adolescente de uma escola na cidade de Medianeira protagonizou cenas de terror ao efetuar disparos com arma de fogo e ferir dois alunos, no mês de setembro. Tudo isso, segundo o depoimento dele, foi motivado por Bullyng.

Paralelo a isso, há outras situações que diariamente acontecem ao nosso redor e que podem vir à tona em situações lamentáveis, como o suicídio. “Estudos e pesquisas têm mostrado que a violência sistematizada pela qual a pessoa vai passando, faz com que alimente sentimentos muito ruins, como o ódio e a raiva. Temos relato também de pessoas que têm sofrimento psíquico muito grande, porque foram ou são vítimas de Bullyng”, afirma a psicóloga Mirian Carvalho, do Crape (Centro Regional de Apoio Pedagógico Especializado) do NRE (Núcleo Regional de Educação) de Cascavel.

Ela esclarece que o Bullyng ganhou notoriedade nas escolas, mas que é apenas uma das formas de violência nesse ambiente e decorrente da mudança da própria sociedade. “O bullying também acontece na família, no trânsito, no trabalho. São várias as situações de violência em que a criança e o adolescente convivem e que fazem com que desenvolvam e manifestem esse comportamento dentro da escola onde se reúnem com mais pessoas e por um tempo maior”, afirma.

Segundo Mirian, as dificuldades evidentes na história do País refletem que hoje, a sociedade caminha para o inverso daquilo que se é esperado. “Vivemos um momento muito difícil na história do nosso país por conta de discursos de ódio, de violência, de falta de respeito às diferentes opiniões e questões étnico raciais, gênero, sexualidade e religião”, pontua.

Violência sistematizada

A psicóloga comenta que cenas presenciadas em países como nos Estados Unidos, por exemplo, e que a sociedade brasileira se negava a acreditar ver em nosso País, hoje estão mais presentes e por isso, preocupam. “O Bullyng é uma palavra em inglês que representa a violência sistematizada, não é tirar sarro, ou uma briga que acontece em frente ao colégio em determinado dia, são formas de violência que ocorrem de maneira repetitiva e contínua. Chacotear, colocar apelidos pejorativos, humilhar, chantagear, além de criar perfil falsos, como o ciberbulluyng e enviar mensagens ofensivas, tudo isso é violência”, alerta.

Embora não haja um único perfil de quem comete ou sofra a prática, a psicóloga compartilha alguns casos que chegam ao conhecimento da equipe do Crape. “Temos relato das escolas que alunos menores são chantageados por maiores, por meio de uma relação de poder que está muito presente no Bullyng. Se não pagar um pedágio, vou tomar seu lanche é uma das falas que ouvimos e às vezes resulta até mesmo na agressão física e no abuso”.

Falta de diálogo

Miriam reconhece que muitas vezes o aluno não consegue estabelecer um diálogo e desabafar e orienta professores para que estejam atentos. “É importante que eles digam aos alunos que caso estejam sofrendo algum tipo de violência, que procurem a equipe pedagógica. O programa Justiça Restaurativa também tem nos auxiliado bastante com os envolvidos na situação de bullyng: vítima, agressor e expectador, no sentido da conciliação”.

Segundo ela também é preciso pensar em cuidados não só com vítimas. “Muitas vezes a pessoa que pratica o bullyng também foi vítima em casa ou na escola. Então para se autofirmar precisa desse comportamento. Ninguém nasce violento, o comportamento é construído e se esquecermos que o agressor precisa ser ajudado, ele continuará propagando a violência”, esclarece.

Trabalho em rede

Apesar da Lei Federal nº 13.185, que institui Programa de Combate à Intimidação Sistemática (Bullying) em todo o território nacional, a psicóloga avalia que há muito que se avançar, principalmente, nas escolas.

“Na rede pública estadual, nós temos dentro do PPP [Projeto Político Pedagógico] desafios educacionais contemporâneos e entre eles entra a temática da violência que precisa ser discutida em todas as disciplinas. As ações são isoladas, mas é preciso reuniões com os pais e alunos para discutir sobre as diferentes formas de violência e rodas de conversa”.

Mirian comenta que a Rede de Proteção do município faz um trabalho eficiente por meio da educação, saúde, assistência social e Patrulha Escolar da Polícia Militar para as diferentes formas de enfrentamento do problema, mas considera a necessidade de contratação de mais profissionais da psicologia. “O trabalho poderia ser reforçado com um número maior de psicólogos, não só dentro das escolas, mas em polos que ajudassem o professor”, ressalta.

Prevenção e combate

A Secretaria da Educação do Paraná deu início ao minicurso “Arte e Bullying: possibilidades pedagógicas” para diretores e pedagogos da rede estadual e municipal de ensino. A formação é ofertada no Centro Estadual de Capacitação em Arte Guido Viaro, em Curitiba.

O curso ocorrerá em cinco datas, nos períodos da manhã e tarde, com duração de oito horas, e nos períodos da manhã e noite, com duração de quatro horas divididas em dois momentos. Além da certificação, ele contará para o plano de carreira dos servidores.

Profissionais vão estudar temas para trabalhar a temática do bullying na escola a partir dos conhecimentos da arte, desconstruir preconceitos e despertar a consciência para a necessidade de valorização da diversidade existente na escola.

DATAS E HORÁRIOS – Nos dias 22 e 29 de novembro os minicursos terão oito horas de duração. Já nos dias 1° e oito de novembro, os participantes farão quatro horas de curso no primeiro dia e outras quatro horas no segundo dia, no período da manhã ou noite.
ARTE POSTAL – O Centro Guido Viaro também promove na próxima terça-feira (30) a exposição das redações elaboradas com a temática Stop Bullying. Artistas, técnicos, professores, estudantes e demais interessados podem enviá-las ao endereço Rua Francisco Mota Machado, 490, Capão da Imbuia, Curitiba, Paraná no CEP: 82800-230 até esta sexta-feira (26). A mostra permanece aberta até 20 de dezembro de 2018.