Toledo – Era manhã do dia 19 de setembro de 2014 e pelo menos 130 colaboradores trabalhavam na indústria de fios quando as chamas começaram e se propagar rapidamente. O sinistro levou mais do que uma estrutura física, de duas unidades que empregam cerca de 700 pessoas em Toledo, no oeste do Paraná. A destruição total de uma das fábricas da Fiasul engavetou sonhos e postergou planos. “Foram muitos desafios, momentos muito difíceis de não saber o que fazer, mas sabíamos que eram 700 famílias que dependiam do emprego. Junto com o incêndio veio a crise e vimos nossas vendas despencar. Chegamos a 430 funcionários. Tudo isso fez o desejo e o planejamento de implantar uma nova estrutura no Paraguai voltar para a gaveta”, conta o diretor-presidente da empresa, o vice-presidente da CACB (Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil), Rainer Zielasko, ao lembrar, aliviado, que não houve feridos.

Depois do sinistro os sócios precisaram se reinventar. Relocaram parte dos trabalhadores dessa fábrica, tiveram de demitir outros, foram em busca de novos mercados e de parceiros financeiros para reconstruir a indústria. O seguro cobriu 90% da unidade destruída e dele vieram R$ 43 milhões para a reedificação, os sócios buscaram financiamentos para os outros R$ 17 milhões e, depois de três anos e três meses de muito trabalho, reinauguraram a fábrica mais moderna do setor de fiação da América Latina. “Investimos em tecnologia, aproveitamos para modernizar e junto com o novo empreendimento veio o começo da recuperação econômica, os clientes voltaram e estamos empregando novamente 700 pessoas nas duas fábricas”, conta o industrial, aliviado.

Isso significa que está quase na hora de tirar da gaveta o estudo feito há alguns anos quando surgiu a ideia de expandir os negócios para o país vizinho. “Precisamos baixar nosso índice de endividamento, mas em 2019 pensamos em retomar esse projeto”, revela.

Apesar de que hoje, reconhece Rainer, as condições no Paraguai já não são tão favoráveis como eram há cinco anos. “Antes a energia elétrica era muito mais barata, hoje migramos para a energia livre e o custo é similar ao praticado no país vizinho. Antes a legislação trabalhista lá era muito mais atrativa, mas com a reforma aqui muita coisa melhorou, o que pesa no Brasil ainda é a carga tributária. Um funcionário custa dois no fim das contas”, reforçou.

Além disso, do Paraguai é possível acessar mercados ainda limitados no Brasil. “A logística de lá é interessante e a abertura para a exportação também”, acrescenta, deixando no ar os planos.

Produção só abastece o mercado nacional

Hoje 100% dos fios produzidos na Fiasul atende ao mercado nacional. A estrutura no Paraguai contribuiria para a abertura ao comércio internacional.

“Da metade de 2016 para cá o nosso mercado começou a se equilibrar, os clientes voltaram a aparecer e hoje tudo o que produzimos vai para cerca de 220 indústrias brasileiras”, citou Rainer Zielasko.

“Estamos trabalhando em três turnos e primamos pela segurança dos nossos colaboradores. Fizemos um termo de ajuste com o Corpo de Bombeiros que foi cumprido na íntegra. Nós realmente ressurgimos das cinzas e fizemos melhor do que estava. Esta fábrica é a mais moderna do setor da América Latina. Foi muito difícil, mas saímos fortalecidos. Houve melhora na gestão e estamos agora com mais foco no trabalho”, considerou o industrial.

Se voltar completamente ao mercado nacional foi uma estratégia pensada no efeito pós-crise brasileira. Com a recessão várias indústrias que estavam obsoletas, mas que incomodavam, saíram do mercado e o que sobrou registrou um pequeno crescimento, os grandes magazines passaram a se abastecer do mercado interno até porque o câmbio ficou menos competitivo nos dois últimos anos. “Hoje o que se produz vende, não há espaço para crescer para o mercado externo. Por isso a unidade no Paraguai seria interessante”, destacou o industrial ao lembrar que da estrutura em Toledo sai 1,5 mil toneladas de fios por mês. “São duas carretas por dia. Temos mais de mil clientes cadastrados, mas atendemos com regularidade 220. São as grandes confecções como Malwee, Hering, Marissol, Lunender e tantas outras entre os nossos clientes”, comemora, ao lembrar que, da sua lista de atendimentos, mais de 50 indústrias já fazem a produção da confecção no país vizinho.