Uma apresentação grandiosa marca o lançamento do 29º Festival de Dança de Cascavel nesta quarta-feira (16), às 20h, no Teatro Municipal Sefrin Filho. O espetáculo “Cão sem plumas” é baseado no poema homônimo de João Cabral de Melo Neto. Esse é o primeiro espetáculo de temática explicitamente brasileira.

A estreia internacional foi realizada em 3 de junho de 2017, no Teatro Guararapes, em Recife. “‘Cão sem plumas’ trata de coisas inconcebíveis, que não deveriam ser permitidas. É contra a ignorância humana. Destruir a natureza, as crianças, o que é cheio de vida”, diz Deborah Colker, responsável pela CIA de dança.

Como há previsão de casa cheia, os ingressos já estão disponíveis para retirada no Teatro das 9h às 18h. O valor do ingresso é 1kg de alimento não perecível que será destinado ao Provopar de Cascavel. Os ingressos estão disponíveis até o dia do espetáculo.

O espetáculo

O poema de João Cabral de Melo Neto, publicado em 1950, acompanha o percurso do Rio Capibaribe, que corta boa parte do estado de Pernambuco. Mostra a pobreza da população ribeirinha, o descaso das elites, a vida no mangue de “força invencível e anônima”. A imagem do “Cão sem plumas” serve para o rio e para as pessoas que vivem no seu entorno.

A dança se mistura com o cinema. Cenas de um filme realizado por Deborah e pelo pernambucano Cláudio Assis – diretor de longas-metragens como Amarelo Manga, Febre do Rato e Big Jato – são projetadas no fundo do palco e dialogam com os corpos dos 13 bailarinos. As imagens foram registradas em novembro de 2016, quando coreógrafa, cineasta e toda a companhia viajaram durante 24 dias do limite entre sertão e agreste até Recife.

A jornada também foi documentada pelo fotógrafo Cafi, nascido em Pernambuco. Na trilha sonora original estão mais dois pernambucanos: Jorge Dü Peixe, da banda Nação Zumbi e um dos expoentes do movimento mangue beat, e Lirinha (ex-cantor do Cordel do Fogo Encantado, poeta e ator), além do carioca Berna Ceppas, que acompanha Deborah desde o trabalho de estreia, Vulcão (1994). Outros antigos parceiros estão em cenografia e direção de arte (Gringo Cardia) e na iluminação (Jorginho de Carvalho). Os figurinos são de Claudia Kopke. A direção executiva é de João Elias, fundador da companhia.

Os bailarinos se cobrem de lama, alusão às paisagens que o poema descreve, e seus passos evocam os caranguejos. O animal que vive no mangue está nas ideias do geógrafo Josué de Castro (1908-1973), autor de Geografia da fome e Homens e caranguejos, e do cantor e compositor Chico Science (1966-1997), principal nome do mangue beat. O movimento mesclava regional e universal, tradição e tecnologia. Como Deborah faz.

Para construir um bicho-homem, conceito que é base de toda a coreografia, a artista não se baseou apenas em manifestações que são fortes em Pernambuco, como maracatu e coco.