O produtor precisa de uma nova abordagem diante dos desafios que se apresentam no agronegócio brasileiro - Foto: Roberto Dziura Jr/AEN
O produtor precisa de uma nova abordagem diante dos desafios que se apresentam no agronegócio brasileiro - Foto: Roberto Dziura Jr/AEN

Cascavel e Paraná - Esqueça a estabilidade de planejar a safra contando apenas com o clima e o câmbio. Para o agronegócio brasileiro, o cenário mudou drasticamente. Enquanto os Estados Unidos se movimentam agressivamente para reduzir a influência chinesa na América Latina, uma luz de alerta se acende para o Brasil.

Ao falar para a equipe de reportagem o Jornal O Paraná, o professor do Insper (Instituto de Estudo e Pesquisa), Marcos Jank, que já esteve em Cascavel participando do Show Rural Coopavel na edição 2024, disse que a disputa entre as duas superpotências não é apenas um ruído distante: é uma ameaça direta que exige uma mudança radical de postura do produtor já para 2026.

Durante anos, o Brasil navegou em águas relativamente brandas, beneficiando-se, desde 2017, do enfraquecimento das relações entre Washington e Pequim. Mas a maré virou. Jank adverte que o mundo caminha para uma fragmentação acelerada — com crises estourando simultaneamente na Venezuela, Europa, Oriente Médio e no entorno da China.

Para o empresário do campo, o recado do professor é direto: o planejamento tradicional morreu. “Antes, era possível trabalhar com um cenário provável de médio e longo prazo. Hoje, isso não existe mais”, afirma Jank. A recomendação para 2026 é blindar a gestão. Não basta mais ter um plano A. É preciso trabalhar com múltiplos cenários, pois as surpresas agora vêm de variáveis que o produtor não controla: a geopolítica, eleições internacionais e conflitos comerciais.

O ponto central da preocupação de Jank é a estratégia dos Estados Unidos. O maior concorrente do agro brasileiro está determinado a recuperar mercados perdidos. A tática americana envolve pressionar países — incluindo parceiros na Europa, Japão e a própria China — para obter acesso privilegiado. Todas as negociações recentes, inclusive as lideradas por Donald Trump, colocam os produtos agropecuários na mesa.

Essa política comercial externa dos EUA, focada especialmente na Ásia, afeta o Brasil na linha de cintura. Se antes o País ganhava com a briga dos vizinhos, agora o cenário de tarifas generalizadas (“contra o mundo inteiro”) torna-se tóxico para um setor que respira comércio global.

Gestão de Risco: a única saída

Diante de um conflito entre potências que pode alterar fluxos de comércio da noite para o dia, o produtor brasileiro fica vulnerável a fatores exógenos. A solução apontada pelo especialista do Insper é o aprofundamento radical no controle da empresa e na gestão de risco. Em um tabuleiro onde as peças são movidas por interesses de Estado em Washington e Pequim, a eficiência da porteira para dentro e a blindagem financeira tornam-se as únicas defesas reais para garantir a sobrevivência e a rentabilidade no futuro próximo.