Algumas vezes, o nascimento de um filho com deficiência chega a aprofundar a relação do casal. No entanto, o mais comum de acontecer não é isso. Frequentemente, ainda mais logo no começo, o casal sente um choque diante da notícia, porque lhes aparece como um abalo em relação às expectativas futuras. É muito comum os pais verem o acontecimento como uma manifestação de má sorte, quando não de um castigo.

Diante do nascimento de um filho com deficiência, por vezes acontece de um cônjuge recriminar internamente (algumas vezes até abertamente!) ao outro como se ele fosse o culpado pelo ocorrido! Os desafios de criar um filho com deficiência obviamente serão maiores ou menores conforme cada tipo de deficiência e o nível específico dela. Não iremos entrar aqui nas singulares formas de deficiência, e sim, falar sobre o modo como ela é experimentada pelo casal e pela família, seja qual for a deficiência.

Quando se olha para a vinda de um filho deficiente na família como castigo, a dinâmica fica voltada à inútil busca pela culpa e o culpado: quem, ou o quê, é responsável? Esta dinâmica é mais frequente nas mulheres. A experiência mostra que é muito mais difícil para elas aceitar a deficiência do filho como parte do destino. Por que costuma ser assim?

Provavelmente, isso está relacionado ao fato de que, dada a intensidade física da gravidez, as mães se sentem mais responsáveis pelo filho e por seu bem-estar do que o pai. Igualmente, uma vez que a gestação se dá no ventre da mulher, ela está mais tentada do que o homem a culpar-se: ela costuma perguntar-se se teria feito algo durante a gestação que poderia ter afetado a criança. Além disso, ainda que a deficiência física do filho possa ter uma causa identificada como, por exemplo, algum acontecimento durante a gravidez da mãe que tenha afetado a criança ou até mesmo um erro médico, identificar o “culpado” em nada contribui para a compreensão da situação e nem para a superação do sentimento de culpa.

Para Hellinger, os pais de filhos com deficiência devem tomar o acontecimento como um “golpe do destino”. Quando compreendemos o nascimento de filhos com deficiência desta maneira, a pergunta deixa de ser sobre o “porquê” (a causa ou o responsável) e passa a centrar-se sobre o “para quê” (a finalidade ou tarefa): qual obra esta família está “destinada” a realizar com a vinda de um filho com deficiência?

Como podemos notar, aqui não estamos tomando o termo “destino” no sentido usual de necessidade cega determinada por uma força superior: providência, ordem natural ou cósmica. Aqui destino é tomado como uma incumbência a ser levada ao seu termo, algo que estamos encarregados de levar ao seu destino: esta pessoa com deficiência chegou a esta família para que pais e irmãos realizem uma missão, a qual precisa do envolvimento ativo de cada membro para ser percebida e levada a cabo.

Quando uma família em seu conjunto compreende desta maneira o filho especial que nasce dentro dela, este filho costuma ser uma bênção para todos. Todos se unem em torno dele, em torno das necessidades especiais que esse filho precisa. Desenvolve o espírito de entrega, de solidariedade de ajuda. Na próxima postagem continuaremos esse assunto.


JOSÉ LUIZ AMES E ROSANA MARCELINO são terapeutas sistêmicos e conduzem a Amparar.

 

Siga nossa página no Instagram @ampararcasais