Investigações revelam o aumento do patrimônio de empresas ligadas a Paranhos durante sua gestão na Prefeitura de Cascavel - Foto: Secom
Investigações revelam o aumento do patrimônio de empresas ligadas a Paranhos durante sua gestão na Prefeitura de Cascavel - Foto: Secom

Cascavel e Paraná - Nova denúncia protocolada na DECCOR (Delegacia de Combate à Corrupção) aponta que empresas ligadas ao seu núcleo familiar do ex-prefeito Leonaldo Paranhos, movimentaram ao menos R$ 54 milhões durante e após ele comandar a Prefeitura de Cascavel por dois mandatos.

Nova denúncia com farta documentação contra Paranhos foi protocolada por Roman na Delegacia de Combate à Corrupção – Foto: Arquivo

A representação, à qual a reportagem teve acesso, foi elaborada a partir da análise de dados abertos, registros públicos e cruzamentos de bases oficiais. O material revela que, enquanto exercia o comando da cidade e controlava a estrutura responsável por fiscalizar e aprovar obras, o círculo familiar de Paranhos expandiu de forma acelerada seu patrimônio empresarial, em paralelo à atuação do poder público municipal.

A análise aponta que, logo após deixar o cargo, Paranhos ingressou formalmente nas mesmas companhias que tinham se beneficiado de aprovações irregulares e operações milionárias durante sua gestão. O conjunto dos dados, segundo a denúncia, indica indícios de enriquecimento incompatível, favorecimento administrativo, subcapitalização de empresas e reorganização patrimonial envolvendo familiares e pessoas próximas.

Durante seus dois mandatos, Paranhos exercia influência direta sobre o sistema de análise de projetos e aprovação de empreendimentos em Cascavel, ao mesmo tempo em que empresas ligadas à sua família obtinham decisões favoráveis, aprovavam obras com falhas graves e realizavam transações imobiliárias muito acima de sua capacidade econômica declarada.

Improbidade?

Em 2023, ainda como prefeito, Paranhos assumiu a administração da Oeste Holding Ltda., empresa privada criada naquele ano. A Lei Orgânica Municipal proíbe expressamente que agentes públicos exerçam gerência ou administração de empresas enquanto ocupam cargos eletivos, o que torna a sobreposição um indício direto de infração político-administrativa.

Antes de chegar à Prefeitura, Paranhos não tinha histórico empresarial relevante no setor da construção civil e imobiliário. Durante o mandato, empresas do núcleo familiar cresceram em velocidade incompatível com sua estrutura formal, tiveram obras aprovadas com irregularidades e movimentaram cifras milionárias. Ao deixar o cargo, o ex-prefeito passou a integrar oficialmente as mesmas empresas que prosperaram enquanto ele comandava o órgão responsável pela fiscalização do setor imobiliário.

Os documentos que compõem a nova denúncia foram apresentados pelo ex-deputado federal Evandro Roman, que registrou o protocolou na DECCOR na última sexta-feira (6). “Esta nova denúncia comprova e reforça, com documentos cuidadosamente reunidos, tudo aquilo que falei lá atrás, e que origem ao processo investigatório que a Delegacia de Combate à Corrupção está conduzindo”, disse Roman, por telefone à reportagem.

O conjunto de informações convergentes – atos administrativos favoráveis, participação privada exercida durante o mandato, evolução súbita no patrimônio familiar e ingresso posterior de Paranhos nas sociedades – sustenta a denúncia protocolada por Evandro Roman e aponta um cenário de conflito de interesses e possível uso da máquina pública para beneficiar negócios privados.

Denúncia aponta que empresas ligadas ao núcleo familiar de Paranhos movimentaram ao menos R$ 54 milhões durante e após seus dois mandatos como prefeito de Cascavel – Foto: Secom

MP do Paraná amplia investigação

Na esteira das novas denúncias, a Delegacia de Combate à Corrupção (DECCOR) da Polícia Civil do Paraná solicitou ao Ministério Público do Estado a prorrogação do prazo para investigar o ex-prefeito de Cascavel, Leonaldo Paranhos (PSD), em um inquérito que apura suspeitas de tráfico de influência e uso de informação privilegiada relacionadas à ampliação do perímetro urbano do município. O pedido foi feito porque os documentos apresentados por Roman chegaram aos autos quando Paranhos já não era mais prefeito, mas referem-se a fatos ocorridos durante sua gestão.

O Ministério Público acatou o pedido, ampliando o prazo para que as investigações prossigam de forma robusta e sigilosa, diante da complexidade do caso e do foro por prerrogativa de função que envolve o atual secretário estadual do Turismo. A solicitação de manifestação das autoridades judiciais foi considerada necessária para garantir que a apuração continue mesmo após o fim do mandato de Paranhos.



Paranhosleaks

As denúncias protocoladas agora por Evandro Roman se somam a uma série de revelações feitas há pouco mais de um ano, no âmbito da investigação informal batizada de ParanhosLeaks. À época, o ex-deputado tornou públicos documentos, áudios, registros internos e cruzamentos de dados que indicavam a existência de um esquema de favorecimento a empresas ligadas ao núcleo familiar do então prefeito de Cascavel.

O material revelava suposta interferência política em processos de aprovação de obras, flexibilização de exigências técnicas, direcionamento de decisões administrativas e uso da estrutura da Prefeitura para beneficiar empreendimentos privados. As denúncias também apontavam possíveis irregularidades em licitações, liberação de alvarás, emissão de habite-se e operações imobiliárias de alto valor.

As revelações do ParanhosLeaks deram origem à instauração de inquérito policial para apuração das suspeitas envolvendo o então prefeito. Agora, com a consolidação dos dados financeiros, societários e patrimoniais, o material foi organizado em um relatório técnico pelo corpo jurídico que acompanha o ex-deputado federal – que também já foi secretário de Estado durante o governo de Beto Richa – e novamente encaminhado oficialmente à Delegacia de Combate à Corrupção, reforçando e aprofundando os indícios levantados desde a primeira série de denúncias.

A nova denúncia retoma e amplia as suspeitas apresentadas anteriormente, incorporando provas documentais, movimentações financeiras e vínculos societários que, segundo Evandro Roman, evidenciam um padrão sistemático de uso da máquina pública em favor de interesses privados.

Por Vanessa Nilsson e Guilherme Mendes, especial para O Paraná