Vagner Júnior Souta é mesmo uma pessoa acostumada à velocidade. Há três anos (2016, 2017 e 2018) sendo o mais rápido canoísta do País no K1-1000m, distância olímpica na qual representou o Brasil nos Jogos Rio 2016, ele vive o auge da carreira de atleta aos 27 anos, depois de ter ascendido no esporte em apenas cinco anos, já com idade de veterano na canoagem.

Isso porque antes de se tornar integrante da seleção brasileira aos 23 anos de idade, ele serviu ao Exército Brasileiro, trabalhou em serraria, foi auxiliar administrativo na Confederação Brasileira de Canoagem e até seminarista.

“Comecei na canoagem no Lago Municipal de Cascavel por incentivo de dois colegas que até hoje moram perto casa dos meus pais. Eu tinha 15 anos. Eles começaram primeiro e me chamaram para remar. Era uma tarde de verão, e pelo calor e para me divertir e refrescar, eu fui. E acabei gostando. Eles saíram e eu continuei, até que esses mesmos amigos entraram para o seminário e eu também fui. Eles saíram e eu continuei, mas vi que não era minha vocação e depois de um ano e meio acabei saindo também”, lembra Vagner, que nasceu em Guarantã do Norte (MT), mas que veio para Cascavel com apenas 5 anos de idade, com o pai Vilmar, a mãe Maria e os irmãos Antônio Luiz e Tatiane – hoje com 33 e 29 anos de idade, respectivamente.

Foi a partir daí que o agora cascavelense iniciou a rápida ascensão no esporte. Em 2009, com apenas dois meses de treinos depois de retornar à canoagem, foi ao Rio de Janeiro disputar o Campeonato Brasileiro de Velocidade e conquistou sua primeira medalha na modalidade, o bronze no K2-1000m da categoria Júnior (o atleta pertence a esta categoria nos anos em que completa 17 ou 18 anos de idade).

 

Bolsa atleta e persistência

A medalha de bronze no Brasileiro de 2009 permitiu a Vagner entrar no programa de bolsa atleta do governo federal. À época, o processo era feito num ano para o competidor receber o recurso na temporada seguinte. Assim, e pela idade, em 2010 ele deixou a canoagem de lado para servir ao Exército Brasileiro. Foi um ano sem treinos. Em 2011 retornou ao esporte.

“O Lauro [de Souza, o Pinda, técnico do Clube de Regatas Cascavel e também da seleção brasileira] me convidou para ir a São Paulo, porque lá havia melhor condição de conseguir patrocínio e eu era maior de idade e precisa me manter. Fiquei um ano e meio em São Paulo e estava me adaptando, remei o Brasileiro de Maratona naquele ano e ganhei no K2-25 km e fui prata no K1-25 km da categoria Sub-23”, lembra Vagner.

Também por falta de recursos, em 2012 Vagner disputou apenas a Seletiva Nacional de Canoagem Velocidade, no Rio de Janeiro, e ainda assim se destacou com o terceiro tempo no K1-500m.

Em 2013, com nova ajuda de Pinda, conseguiu trabalho na Confederação Brasileira de Canoagem. “Eu era auxiliar administrativo e minha rotina era treinar às 5h30, trabalhar, treinar no horário de almoço, trabalhar e treinar no fim da tarde. Foram seis meses assim, mas valeu à pena. Consegui a classificação pra seleção brasileira na seletiva nacional como primeiro colocado na categoria Sênior [no K1-1000m]. Isso com 22 anos”, lembra Vagner, que em 2014, com 23 anos, disputou sua primeira competição internacional: os Jogos Sul-Americanos de Santiago, no Chile. De lá, voltou com duas medalhas de prata. No mesmo ano, foi o segundo mais rápido no Controle Nacional e disputou também o Mundial Júnior e Sub-23 na Hungria, o Mundial Sênior na Rússia e o Campeonato Pan-Americano no México (prata no K1-500m) como atleta do Brasil.

 

Rumo às Olimpíadas

Em 2015 as viagens internacionais para representar a canoagem brasileira seguiram intensas para Vagner. Foi prata no Campeonato Sul-Americano no Equador, prata e bronze nos Jogos Pan-Americanos no Canadá, e disputou o Mundial na Itália. No ano olímpico (2016) a agenda também foi cheia, com presenças no Campeonato Pan-Americano nos Estados Unidos (prata e bronze), na Copa do Mundo da República Tcheca (final B) e no Campeonato Sul-Americano na Argentina (um ouro, três pratas e um bronze), além das Olimpíadas no Rio de Janeiro (quinto lugar na final B).

 

2017, 2018 e 2019

Pós-Olimpíada, em 2017, quando geralmente o calendário é mais ameno, por ser o início de novo ciclo olímpico, Vagner Souta disputou os campeonatos Sul-Americanos de Velocidade (quatro ouros e uma prata) e também de Maratona (uma prata) na Colômbia, a Copa do Mundo na Hungria (6º na final C), o Mundial na República Tcheca (duas finais B) e o Campeonato Pan-Americano no Equador (uma prata). Em 2018, competiu nos Jogos Sul-Americanos na Bolívia (ouro e prata), no Mundial em Portugal e no Campeonato Pan-Americano no Canadá (um bronze). “Esse ano as disputas estavam muito forte, e em 2019 serão mais ainda, pois todos precisam conquistar vagas para os Jogos Olímpicos de 2020”, explica Vagner, já projetando muito trabalho para o ano que vem.

 

Recado aos jovens

Vagner Souta é o número 1 do caiaque de velocidade do Brasil mesmo tendo começado praticamente aos 18 anos no esporte. Hoje ele treina ao lado de jovens de até 9 anos de idade no Lago Municipal de Cascavel: “Eu tento incentivá-los a que tenham gosto por medalhas, em ir lá e pegar. Eu brinco com eles. Digo também que o esporte não é fácil para todos, mas aquele que tiver dedicação, disciplina e força de vontade será o diferenciado. E que assim, chegar ao topo vai ser só a consequência do trabalho deles”.

 

Ídolo

Como não poderia deixar de ser, Vagner Souta é ídolo e motivo de orgulho para seus pais, irmãos e jovens remadores de sua equipe, o Clube de Regatas Cascavel. Já o seu ídolo e maior incentivador é seu irmão, Antônio Luiz, que sofreu paralisia infantil e convive com dificuldades de locomoção e comunicação. “Ele é um exemplo. Manda-me mensagem mostrando que pedalou 20 quilômetros, que fez conseguiu tal feito, e isso me incentiva muito. Ele é muito engajado na luta pela acessibilidade. Estuda na Unioeste com dificuldade pela falta de intérpretes de libras e nunca desiste”, diz Vagner.