Queda no consumo de carne faz obra bilionária estacionar

A planta visa dobrar a capacidade de abate diário da região, que hoje é de 7,5 mil cabeças, passando para 15 mil

Reportagem: Juliet Manfrin

O recuo do consumo no mercado interno da carne suína em torno de dois quilos por habitante/ano (de 16 para 14 kg/ano) fez o maior projeto de infraestrutura do agronegócio em andamento no País pisar no freio mais uma vez. A obra da Frimesa em Assis Chateaubriand, orçada em R$ 1,4 bilhão, continua na terraplanagem, segundo o CEO da cooperativa, Elias Zydek, e assim deve ficar ao menos até o último trimestre deste ano.

A planta visa dobrar a capacidade de abate diário da região, que hoje é de 7,5 mil cabeças, passando para 15 mil. “A desaceleração do consumo influenciada pela economia menos aquecida fez com segurássemos um pouco mais o projeto, então a obra da indústria só começará em 2020”, confirma.

Essa unidade deve gerar 3,8 mil empregos diretos na primeira fase e chegar a 5,5 mil trabalhadores em operação completa. A Frimesa vislumbra, entre outros aspectos, a melhora nas condições financeiras internas, já que hoje a produção da cooperativa é voltada quase que apenas ao mercado doméstico.

Nem mesmo a superdemanda criada pela China, que sofre com a peste suína, tem interferido no aumento das exportações do produto. E não apenas na Frimesa, mas de todas as unidades que processam carne suína na região. Ao menos isso não tem ocorrido a níveis que o mercado comportaria.

De janeiro a julho deste ano, a venda da carne suína e de seus derivados na região oeste do Paraná aumentou cerca de 26%, ao passo que no Estado esse avanço foi de cerca de 70%. Segundo Zydek, esses números são praticamente irrelevantes se comparados às plantas industriais de Santa Catarina, que passaram a exportar muito mais que o Paraná,

Região não tem plantas habilitadas à exportação

Segundo Elias Zydek, o grande vilão para o oeste, onde está 60% da produção estadual, com cerca de 6 milhões de cabeças de suínos, é a falta de habilitação das plantas industriais para vender para mercados aptos a comprar, como é o caso da própria China e de outros países asiáticos.

“Há pelo menos dois anos temos pedido reiteradamente ao Ministério da Agricultura para que as nossas plantas passem pelo processo de habilitação para exportar para outros países. Reforçamos esse pedido agora, mais uma vez, então vamos ver se até o fim do ano teremos novidades para que em 2020 possamos, enfim, vender mais para fora do Brasil, para esses mercados que precisam do produto”, reforçou.

As habilitações às quais Zydek se refere passam por um processo criterioso e não ocorrem da noite para o dia. Envolvem, entre outros aspectos burocráticos, as missões dos países compradores às unidades que desejam se credenciar à venda.

Enquanto as plantas estão inabilitadas para exportar carne suína, as expectativas se voltam para as condições sanitárias, que devem ser decisivas para reversão desse quadro. “Acreditamos que o fim da vacinação do rebanho contra a febre aftosa, que nos dará o status de área livre sem imunização, vá contribuir muito para alcançarmos outros mercados. A condição sanitária é uma garantia que temos buscado há muito tempo. Estamos fazendo o dever de casa e esse é um caminho sem volta para o Paraná. Parece-me que as poucas resistências nas regiões norte e noroeste do Estado de criadores que trazem animais de outras regiões já foram vencidas e eles estão convencidos de que o status é o melhor caminho para todos”, considerou.

A expectativa é para que o reconhecido interno seja publicado pelo Ministério da Agricultura no dia 30 de setembro próximo. Por um ano – até setembro de 2020 – as avaliações internas e externas mostrarão se o Estado de fato fez seu papel e se tem condições para o reconhecimento internacional. A expectativa é para que em maio de 2021, na assembleia-geral da OIE (Organização Mundial de Saúde Animal), o Paraná tenha o reconhecimento internacional.

China passa a engordar suínos a 120 kg

Na China, a situação continua crítica devido à falta de proteína animal. Segundo o economista do Sistema Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná), Luiz Eliezer Ferreira, a saída está sendo engordar mais os animais. Devido ao abate em escala de suínos infectados pela peste, a alternativa foi aumentar o tempo de engorda dos animais nas granjas.

“Na China, os suínos não estão sendo abatidos mais com 90, mas com 120 quilos. É um ganho de peso para abastecer o mercado interno. Nesse aspecto, aumenta o consumo de grãos que vendemos para eles, como a soja e o milho para composição da ração”, reforçou.

Segundo ele, nesse aspecto a guerra comercial entre Estados Unidos e China deve favorecer o mercado de grãos brasileiro. “Ocorre que em todo o Estado foi comercializado 68% da safra passada até agora. Nesse mesmo período em 2018, já haviam sido 76%, ou seja, a venda neste ano está mais parada em decorrência das instabilidades na formação do preço do produto que também está bem menos valorizado que em 2018”, reforçou.

Na região oeste, a estimativa do mês passado do Deral (Departamento de Economia Rural) indicava que seguiam nos silos e nos armazéns cerca de 1,5 milhão de toneladas da oleaginosa.



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