Cascavel – Durante dois dias, em 24 e 25 de setembro, forças nacionais de segurança levaram à região da fronteira do Brasil com o Paraguai, em um traçado de cerca de 3,5 mil quilômetros quadrados com ações que seguiam desde Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná e Santa Catarina, mais de 3 mil homens, militares e civis, receberam apoio da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal e da Receita Federal, utilizaram uma estrutura de 30 aeronaves, mais de 400 viaturas e 20 blindados para fazer uma espécie de mapeamento da fronteira.

Intitulada de Agata Graal, a operação serviu, segundo o ministro da Segurança Pública Raul Jungmann, que esteve na região ontem, para cessar os crimes transfronteiriços como de contrabando e o tráfico de drogas e armas. Enquanto os blindados estavam na rua, os radares monitoravam o movimento no Rio Paraná e no Lago de Itaipu e as aeronaves sobrevoavam o espaço aéreo, em 48 horas de ação, se observou, segundo o almirante de esquadra, chefe do Estado Maior do Conjunto das Forças Armadas Ademir Sobrinho, que a criminalidade parou. Questionado como foi possível dimensionar isso, Ademir Sobrinho, respondeu que, como “havia conhecimento, principalmente do rio [Paraná], se observou que o rio ficou sem movimento neste período”.

Folga

Na verdade, a operação apenas deu uma “folga” para os bandidos, já que é público e notório que sempre que uma operação é realizada os criminosos abandonam as funções e só retornam após as forças de segurança levantarem acampamento.

Também não foram apresentados dados de apreensões, apesar de terem sido prometidos por todos os envolvidos nas ações. A justificativa, segundo Ademir Sobrinho, é de que o objetivo não eram os números, mas testar uma nova sistemática de operações conjuntas, envolvendo mais do que uma força de segurança, assim como novas metodologias de ações conjuntas. “Fechamos a fronteira e estávamos testando um novo modelo, uma grande integração de inteligência online e ela foi um grande sucesso. Vamos tirar lições para desenvolver treinamento e melhorar a integração entre as forças de segurança”.

Já o ministro da Segurança, Raul Jungmann, reforçou que com esse mapeamento foi possível saber, por exemplo, onde estão os locais onde se deve agir a partir de agora e que essa nova filosofia de operação deverá ser incorporada com ações rápidas e de surpresa, descartando operações permanentes mais ostensivas na fronteira.

Vale destacar que o trabalho feito em conjunto com as forças de segurança não trouxeram respostas que chegam a ser uma novidade para a segurança pública nacional. Ao menos não deveria ser. Segundo relatos das próprias forças de segurança, há pelo menos uma década, são enviados para Brasília, diariamente, os chamados Relins (Relatórios de Inteligência) com o monitoramento e o movimento de traficantes, contrabandistas e do crime organizado entre Brasil e Paraguai.

Outro ponto que chamou a atenção é que a estrutura milionária da operação de dois dias, que teve uma de suas bases na cidade de Cascavel [o governo não informou quanto gastou nesta operação] não contou com um importante aliado que segue encaixotado, há quase três anos, no aeroporto de São Miguel do Iguaçu. Jungmann foi indagado pelo Jornal O Paraná se o Vant (Veículo Aéreo Não Tripulado) trouxe informações à operação. O ministro reforçou todos os outros equipamentos usados, menos o Vant.

A reportagem apurou que a aeronave não foi levada ao ar, contrariando uma promessa feita pelo próprio ministro no início do ano quando garantiu que a aeronave milionária voltaria à ação em breve em parceria com a Força Aérea Brasileira. Relatos de quem atuou com o equipamento, amplamente divulgados pelo Jornal O Paraná, sempre deram conta de que em nenhuma das vezes que ele alçou voo – nos anos de 2011 a 2015 – voltou sem respostas sólidas sobre o caminho da criminalidade na fronteira.

Radares móveis vão custar mais de R$ 100 milhões

O ministro Raul Jungmann anunciou à imprensa que está sendo fechado acordo com a FAB para a aquisição – segundo ele ainda neste ano – de radares móveis de baixa altitude para monitorar aviões bimotores que estejam a serviço do crime organizado e que até então tinham dificuldades de ser identificados pelos radares comerciais que funcionam apenas elevadas altitudes.

“Grande parte do tráfico de drogas e armas é feita com aviões que voam em baixa altitude. Vamos colocar estes radares na fronteira com a Bolívia e com o Paraguai, inibindo toda possibilidade de crimes transfronteiriços aéreos. Dia 9 [de outubro] assinaremos o convenio com a FAB e a partir daí teremos um edital para chamamento público ainda neste ano”, destacou.

O projeto que, segundo o ministro, não deverá custar menos de R$ 100 milhões, não cabe exatamente ao combate ao crime organizado na fronteira do Brasil com o Paraguai. De acordo com forças de segurança que atuam no entorno, a chamada rota caipira, por usar aviões conhecidos como sertanejos bimotores, deixaram de ser uma prática constante por aqui quando o cerco de fiscalização fechou contra as bases e as pistas clandestinas há cerca de meia década.

Hoje o principal caminho de operacionalização do tráfico e do contrabando ocorre por terra, com carros de passeio de luxo, geralmente roubados ou furtados, ou ainda com auxílio de caminhões envolvendo uma rota bem traçada e definida, incluindo a conivência e envolvimento de alguns agentes públicos de segurança. Segundo o ministro, outras medidas serão adotadas para fechar o cerco também por terra e água, mas não há ações ostensivas imediatas previstas.

Jungmann reforça que a compra dos radares e outras ações na segurança só serão possíveis graças a um adicional de R$ 700 milhões ao Ministério ainda neste ano. “Também estamos instalando um Centro Integrado de Inteligência e Controle no Paraná iniciando suas operações até o fim do ano”, seguiu sem detalhes sobre o local que acomodará o centro.