Os pais, ao longo da vida, podem ter acumulado méritos e bens dos quais os filhos não participam. Por exemplo, se o pai ou a mãe é cientista e fez uma descoberta e se, em decorrência disso, recebeu um prêmio; ou se é uma personalidade aclamada no mundo das artes e letras como a pintura, a música, o cinema ou a literatura e, graças a isso, colheu os bens mais variados; ou, ainda, se foi uma personalidade política decisiva na história de um país e recebeu, devido a isso, amplo reconhecimento. Nada disso pertence aos filhos, ainda que possam receber delas vantagens indiretas, seja em termos patrimoniais, seja em termos de reconhecimento. Ou seja, o fato de a mãe ou o pai terem sido cientistas, pintores, músicos, artistas ou políticos não faz do filho alguém que também o seja. Quando um filho toma para si o bem pessoal que seus pais adquiriram com o esforço deles, ele toma algo sem haver pago o preço por isso. E isso causa consequências prejudiciais ao sistema.

Ainda na linha dos méritos dos pais, existe outra conquista dos pais – esta bem mais complexa – à qual os filhos não têm direito: a herança. Independente daquilo que estabelece a prática legal, do ponto de vista da ordem natural, afirma Hellinger, os filhos não têm direito à herança. Aquele que recebe uma herança de seus pais deve ficar feliz com isso e recebê-la como um presente e não como um direito.

Sobre esse assunto, Hellinger escreve o seguinte: “Uma herança é um presente dos pais para os filhos e, como qualquer presente, deve ser dado conforme o gosto do doador. […] Sempre que os prejudicados se mostram insatisfeitos e pedem mais – como se a herança fosse um direito -, a turbulência se instala no fluxo do amor” (Hellinger, B. A simetria oculta do amor, p. 109).

Por outro lado, há também aquilo que os pais sofrem – seja por enredamentos ou por outro motivo – e que, igualmente, pertence unicamente aos pais e os filhos não têm direito a reivindicar para si. Trata-se, por exemplo, das dívidas, das doenças, das obrigações, das injustiças sofridas ou infligidas. São coisas, diz Hellinger, que “não foram herdadas da geração anterior para serem transmitidas à geração seguinte como um espólio; por isso, são da responsabilidade dos pais. Cabe a estes proteger os filhos de seus efeitos negativos, como cabe aos filhos deixar que os pais arrastem seu destino – da maneira que quiserem. Se os pais dão o que é prejudicial ou os filhos o tomam, o amor é ferido” (Hellinger, B. A simetria oculta do amor, p. 108).

Para concluir, um esclarecimento final. Embora possam existir benefícios aos quais os filhos não têm o direito de reivindicar para si, ou malefícios cuja responsabilidade não devem assumir sobre si, precisam tomar os pais tais como são, com seus méritos e deméritos. Alguns acreditam que tomar de modo irrestrito os pais poderia ser arriscado por causa de algum traço problemático deles, como uma culpa ou uma deficiência. No entanto, tomar seus pais do jeito que eles são tem o efeito de não assumir o lado problemático de seus pais, mas, muito antes, unicamente o lado bom.

Finalmente, o tomar os pais possui a propriedade de separar. Quem toma os pais também diz: “É muito aquilo que você me deu, e é o suficiente. O resto eu mesmo farei, e agora eu deixo você em paz”. Essa atitude torna o filho independente e pronto para seguir sua própria vida.


JOSÉ LUIZ AMES E ROSANA MARCELINO são terapeutas sistêmicos e conduzem a Amparar.

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