Catanduvas – Os ataques registrados no Ceará desde o início do ano por grupos criminosos é “fruto” de uma rara parceria firmada por grandes facções, que comumente se enfrentam pela disputa de espaço, de mercado e de poder. A condição extrema de se unir é uma tentativa de desestabilizar o Estado. Serviços de inteligência das forças nacionais de segurança detectaram que a escolha do estado nordestino não se deu ao acaso, e ainda não se descarta a possibilidade de essas investidas se espalharem por todo o território nacional. No Paraná, o serviço de vigilância é constante e por enquanto a situação está controlada.

Segundo apurado pela reportagem do Jornal O Paraná, os serviços de segurança identificaram ainda que as rebeliões em série, previstas para este mês de janeiro, foram sufocadas pelas investidas que já levaram mais de 400 pessoas para a cadeia, mas que ainda não foram cessados.

Essas ações estão sendo planejadas há meses e agora encontraram um ambiente mais propício para se proliferarem. Isso porque a disputa por espaço e o enfraquecimento de grupos criminosos a partir de operações policiais fizeram com que líderes das duas maiores facções criminosas brasileiras, o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando vermelho), chegassem a um acordo e mudassem uma estratégia já conhecida do PCC, especialmente no oeste do Paraná. Desde 2018, a morte de agentes públicos de segurança está proibida entre eles.

No ano passado, o PCC chegou a listar alguns dos agentes públicos marcados para morrer, inclusive no oeste do Paraná. Um dos nomes que encabeçavam a lista era de um agente penitenciário lotado em Catanduvas e que foi retirado do Estado com a família por questões de segurança. “Quando se assume um cargo na área da segurança, assumimos com ele os riscos que a função tem. Por mim, eu ficaria, mas acharam melhor sairmos daqui, ao menos por um tempo”, disse o agente em entrevista exclusiva ao Jornal O Paraná na época.

O enfrentamento ao Estado

Desde 2016 o PCC assassinou dois agentes penitenciários lotados no presídio de segurança máxima de Catanduvas, no oeste do Paraná. As duas mortes teriam sido ordenadas por líderes da facção que já estavam presos.

“Todas as vezes que o PCC faz um ataque desses, ele sabe que não sairá impune. O bando perdeu muito dinheiro nessas duas situações e em outras quando planejava a morte de outros agentes. O cerco fecha e isso, aparentemente, é o que eles não querem mais, ao menos não neste momento”, revela uma autoridade em segurança pública e que acompanha o monitoramento das facções.

Como as medidas de repressão nunca são isoladas e respingam em outros grupos criminosos, a alternativa encontrada neste momento, que utiliza o Ceará como cobaia, são os ataques desordenados nas ruas. “Não se mata ninguém, mas se enfrenta o Estado. É uma forma de mostrarem que estão sintonizados e que sabem como fazer. Usam gente que nem é faccionada, muitos menores, gente que quer ganhar um dinheiro extra. Isso acaba dificultando a ação das forças de segurança”, explica outro policial especializado em monitoramento de grupos criminosos.

Somado a isso, o PCC, que é a principal facção em atuação no Paraná, vive um drama interno de enfrentamento. O grupo está rachado desde o assassinato de um dos seus líderes, Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, no ano passado. As investigações apontam que Gegê pode ter sido morto a mando de um dos principais nomes do Primeiro Comando da Capital, o Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola. Isso provocou uma disputa pelo comando da facção e deu origem a uma crise interna sem precedentes. O racha, inclusive, já causou um abalo financeiro do grupo, dentro e fora do Brasil. “Com menos dinheiro, tudo fica mais difícil. Ou se caminha para o enfraquecimento de vez ou se tenta levantar com tudo e aí as ações ficam ainda mais agressivas. É isso o que estamos trabalhando para evitar”, completa o agente de segurança pública.